Nos passos de Patânjali

Na tradição hinduísta, há seis linhas filosóficas ortodoxas. As duas com as quais tenho mais proximidade são o Sâmkhia e o Yoga. Sâmkhia é a estruturação do conhecimento essencial e Yoga é a compreensão da mente, da alma. Nesse contexto, meditar é a prática fundamental, porque a integração das percepções se dá num estado meditativo, de plena atenção. Desenvolver essa plena atenção é característica de toda a tradição hinduísta. Pode-se desenvolver a prática de meditação por vários caminhos.

O sábio Patânjali, quando codificou o Yoga, incluiu o caminho da meditação, o "samadhi pada". "Samadhi" é o último estágio da meditação e "pada" significa caminho. Ele descreveu, de forma precisa, os fundamentos da meditação. No entanto, cada linha do pensamento hinduísta apresenta métodos e artifícios úteis para a prática de meditação. No Budismo, por exemplo, existe um estilo de meditação muito específico. Mas, na essência, é muito semelhante, porque o Budismo também surge no contexto da grande Índia, do "Mahabharata", e na mesma época legendária da escola Yoga. A meditação budista inclui o estilo "vipásana", em que se fica sentado, em absoluto silêncio, desde um mínimo de meia-hora até dias (com intervalos para o sono e as refeições), com orientações que variam conforme a região cultural e linha budista.

Já as pessoas que seguem uma linha do Yoga de devoção, meditam com auxílio de mantras, por exemplo, repetindo o nome da divindade. Certamente você já ouviu algumas delas repetindo o famoso mantra, "Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare". Outro caminho devocional é o "Karma Yoga", que é a vertente da ação, do agir sem o interesse pessoal pelo resultado da ação. Ou seja, é o caminho da ação desapegada, desinteressada. No Yoga do conhecimento, que alguns chamam de "Raja Yoga" e outros de "Jñaña Yoga", o caminho da meditação é a prática do discernimento, da compreensão intelectual da realidade, para se alcançar o estágio de plenitude.

Dizem que essa variedade é devida à multiplicidade de personalidades humanas. Há pessoas que são bastante ativas, para as quais poderia ser insuportável ficar concentradas estudando, pois elas prefeririam agir. Há outras que têm natureza devocional e que buscam entregar-se a uma causa maior. Por aí seguem vários tipos, e quero observar que o legado deixado pelo sábio Patânjali é a base para todos os estilos de Yoga. Confesso, no entanto, que me surpreendi ao ler, pela primeira vez, uma versão do "Bhagavad-Gita" (escrita com as palavras do Mahatma Gandhi), pela constatação de que cada um dos seus dezoito capítulos iniciava-se com a palavra yoga e referia-se a uma forma de comportamento que levava a agir em união com o princípio divino da vida. Mais tarde, no Yoga Institute, em leituras de outras versões do Gita, vi que era mesmo assim: a cada capítulo correspondia uma forma de Yoga.

Patânjali comenta os vários tipos de yogues, as várias personalidades, e como cada um pode identificar-se com este ou aquele método. Ele vai lá na origem do "Sâmkhya", que diz que a natureza tem basicamente três qualidades: "tamas", "raja" e "sattva" - densidade, movimento transformador e sutileza. A dosagem dessas qualidades nunca é a mesma, porque a matéria é dinâmica, está sempre se alterando. Então, pode-se estar ora mais tranquilo, ora mais rápido, ora mais lento e assim ir-se identificando com este ou aquele caminho. O importante é manter-se atento, para aproveitar as oportunidades de acordo com o estado de espírito.

Patânjali registra (além de cinco tipos básicos de controles de comportamento social) cinco estímulos que devem ser cultivados: pureza, contentamento, perseverança, estudo e render-se à vontade divina ("Ishvara pranidhana"). Quando fala de estudar, ele refere-se tanto ao autoconhecimento (do tipo socrático) quanto estudar o que caracteriza a época e o contexto em que se vive: os costumes, a religião, a política, a história e a cultura. Essas indicações refletem o cuidado da necessária inserção social do indivíduo, que precede qualquer pretensão meditativa ou "mística" dos neófitos.

Patânjali sistematiza, a partir da atenção com o comportamento mental e o social, um caminho para cultivar-se o estado de meditação, de liberdade, de estar além do social (e sem conflitos), de prescindir de qualquer forma de identificação ou de individualidade, de transcender as dualidades da dimensão espaço-tempo.

Na compreensão hinduísta, sair da dimensão espaço-tempo corresponde ao não agir típico do estado meditativo ou contemplativo. Enquanto se estiver agindo, está-se no espaço-tempo. A questão, que o pensamento hinduísta propõe e que os cientistas como o Amit Goswami reforçam, é: qual é a interferência mínima que eu posso fazer para permitir que a vida manifeste-se, sem que eu atrapalhe, uma vez que o observador sempre interfere na experiência? Ir além da ação aparente é o desafio, no caminho da meditação.

Thadeu Martins

      

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