PhD em mim mesmo

Um dos tópicos que o sábio Patânjali acentua em seus textos é o autoconhecimento. Quando trata do código de comportamento, logo no início do Yoga Sutra, primeiro ele afirma que Yoga é a cessação dos turbilhões mentais, depois comenta as modificações da mente, que são basicamente o conhecimento (certo ou errado), a fantasia, o sono e a memória.

Patânjali comenta que as manifestações mentais trazem sofrimento de algum modo: quando me identifico com alguma delas, isto é, quando permaneço fixado em alguma delas. A origem desse sofrimento decorreria de ignorar o todo que está acontecendo e que tornaria relativa e circunstancial aquela identificação. É a ignorância, num sentido bem amplo, de tomar a realidade por uma identificação circunstancial que dela se tem. Na medida em que eu conseguisse distanciar-me da circunstância, tudo se tornaria relativo, pois eu deixaria de fixar-me nisto ou naquilo.

Apaziguar essas manifestações mentais, que estão sempre acontecendo, ajuda a ficar-se mais sereno. Não se trata exatamente de apaziguamento, mas sim de "desidentificação" com as manifestações mentais. Eu me vejo como indivíduo e, portanto, ajo individualmente. É próprio da natureza humana viver a oposição entre o indivíduo e o coletivo. Há contextos sociais, em que se é muito mais estimulado ao coletivo, mas mesmo assim a individualidade está bastante presente. Parece que o ser humano tem uma compulsão para a individualidade.

Quero passar da individualização para a ideia de identificação: a sensação de identificar-me com algo ou alguém; desde algo muito abstrato, como um ideal, uma causa, um contrato de casamento, até alguém real, como a pessoa que amo, a escola em que estudei, a instituição onde trabalho. Esse identificar-me com isto ou com aquilo, por um lado, pode trazer-me sensação de pertencimento, de segurança pessoal ou social; mas, por outro lado, pode potencializar uma fixação em uma parcela, apenas, do todo que é o real.

Claro que sempre se tem uma vivência circunstancial. Eu, você e todo o mundo emociona-se bastante, é tomado pelas situações; cada um vive identificando-se com situações, com pensamentos ou ideologias. Então é como se o viver fosse um constante ir e vir, ora me identifico e ora deixo de identificar-me. Quase todo o mundo percebe (ou inconscientemente vivencia) ciclos tradicionais de grandes perdas de identificação, como as crises dos 28 anos, ou dos 40 anos, ou da meia-idade. São momentos em que a maioria das pessoas passa por fortes crises de identidade, de identificação com valores, crenças, comportamentos, relacionamentos de família.

De que forma pode-se conseguir ou manter um distanciamento dos exageros da identificação? Alguns comportamentos são sugeridos pelo sábio Patânjali, entre eles o conhecer-se. Na medida em que eu tento me conhecer, também estou me distanciando, porque me torno uma terceira pessoa, que é observada por mim mesmo.

Estou falando de estudo e de autoestudo, que se chama de "svádhyáya", no Yoga Sutra. Estuda-se a cultura e a si mesmo, o ambiente e as circunstâncias onde se está: a história da própria vida, da família e do país. O objetivo é compreender-se o contexto, tomar-se conhecimento do que foi produzido pelas gerações que antecederam e situar-se de modo prático. De certo modo, isso é estimulado desde cedo, na vida de cada um, pela família e pela sociedade. Enquanto o autoconhecimento não é assim tão estimulado. No entanto, posso dedicar-me a conhecer-me e tenho várias oportunidades de fazer isso, como, por exemplo, buscar a opinião dos outros sobre mim. Essa opinião pode ser de um especialista em comportamento humano, ou de meus amigos, ou a minha própria opinião, com um esforço de sinceridade, pois, afinal, eu deveria ser o maior especialista em mim mesmo.

Um artifício inicial para essa finalidade seria melhorar a percepção física de mim mesmo; por exemplo, prestar mais atenção na minha respiração, tanto nos exercícios físicos e mentais de Yoga, como na minha conduta de vida social. Ou seja, manter-me atento em cada um desses momentos, tanto ao que estou fazendo quanto a mim mesmo em ação. Outro artifício, também exigente, é prestar atenção nos meus sentimentos, percebê-los e registrá-los. Creio que a chave do autoconhecimento está nos sentimentos, pois eles estão sempre associados aos significados das minhas experiências vividas. Se eu passo a tratar meus sentimentos, estou aumentando as possibilidades de me conhecer. Prestar atenção nas emoções me parece o melhor artifício para o autoconhecimento.

Claro que é preciso sistematizar isso. Cada um pode usar o seu próprio método. Algumas pessoas, por exemplo, registram as emoções em um bloco de anotações, outras em voz alta. Alguns sentimentos são recorrentes e, sempre que eles surgem, devo perguntar: por que aparecem com tanta frequência e mexem tanto comigo? É bom fazer esse estudo dos sentimentos em um determinado horário. Isso ajuda a desenvolver a disciplina necessária. Um exercício tradicional é tentar lembrar do que eu fiz ao longo do dia e registrar as situações e os sentimentos que tive nessas situações. O propósito é criar e manter o hábito de observar-me, tendo como foco a lembrança do registro afetivo. A primeira habilidade a desenvolver é perceber os sentimentos e depois, como qualquer observador, estudá-los e explorá-los, para que assim possam surgir os insights, e o que eles querem dizer-me.

O sentir é talvez a principal conexão com a realidade. Quase tudo é decidido de forma emocional. O sentimento é a base. Portanto, é fundamental cuidar bem dos sentimentos. O caminho indicado por Patânjali é observar os sentimentos, percebê-los e distanciar-se deles como se fosse uma terceira pessoa que estivesse observando a si mesma. Assim, pode-se criar um método pessoal de autoinvestigação. Descrevi até aqui o que eu estou fazendo comigo mesmo e confesso estar gostando bastante do resultado.

Thadeu Martins

      

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