Consciência além da vivência

Na base da compreensão do que é Yoga, como já observei com outras palavras, há uma dualidade essencial: a consciência e a natureza, em que a consciência é um referencial não manifestado ("purusha"), enquanto a natureza é o que se manifesta ("prakriti"). Ambas estão sempre juntas, não há separação. Então, tudo aquilo que é manifestado – incluindo os pensamentos, as visões, os sonhos e a matéria, seja ela de que natureza for – é "prakriti". No entanto, toda a manifestação acontece em relação a um referencial não manifestado, "purusha".

O cientista Amit Goswami chama a atenção, em livros e palestras, que a compreensão da física, atualmente, leva em consideração a interferência da consciência. Observo que a questão da independência do observador em relação àquilo que ele está pesquisando sempre foi uma celeuma, um ponto de antagonismo na visão dos cientistas (mais acentuadamente nas ciências sociais).

Um dos cânones da ciência é poder reproduzir as experiências; e que elas possam ocorrer independentemente daquele que conduz a experiência. A ciência, portanto, estaria baseada nessa independência do observador, que não influenciaria os resultados da observação. Mas, ao se chegar no limiar da subpartícula da partícula atômica, a constatação é que a simples presença do observador altera o fenômeno. Os físicos pesquisadores chegaram a verificar situações que sugeriam total inconsistência, como se a física se mostrasse contraditória. Mas é claro que a natureza não é contraditória, o que pode ser contraditório é o modelo que se está utilizando para observar a natureza.

Essa constatação conceitual começa a ser popularizada pelo PhD em física, Fritjof Capra, na década de 70. Ele demonstra que há um paralelismo extraordinário entre a expressão do misticismo oriental e a linguagem com a qual a física descreve a natureza. E chega próximo à questão da consciência. Amit Goswami aprofunda-se nesse tema. No livro "Universo autoconsciente", ele explora o pressuposto de a consciência, que antecede a nossa consciência verbal, condicionar tudo o que há.

Isso que habitualmente chama-se de consciência seria, no máximo, uma consciência social, verbal, linguística, que ajuda a interagir e compreender o que está no mundo social aparente e para o qual eu, você e todo o mundo estaria preparado. Não é a essa consciência superficial que se refere Amit Goswami. Ele refere-se a um nível de consciência tão essencial que, na tradição habitual, chama-se de divindade. Porém, na linha filosófica indiana "Sâmkhya", focalizada no conhecimento e que dá suporte para o Yoga, não existe referência a Deus em nenhuma acepção. Não há nenhuma personificação da divindade. Quando se fala de vida, da inteligência essencial de vida, está-se falando daquele nível de consciência que não é personificado, mas que é absolutamente presente e condicionador de tudo o que se manifesta. Os humanos atribuímos a esse princípio essencial e simbólico características humanas alegóricas, para facilitar a comunicação. Observo, no entanto, que o símbolo é que é poderoso, enquanto a alegoria é apenas a representação do símbolo.

Amit Goswami fala desse nível de consciência, cujo acesso cultiva-se em Yoga pela prática de meditação. Ele também segue o princípio de que o acesso à consciência dá-se pela não ação. Enquanto se age "conscientemente", age-se na inteligência social, nos limites do espaço-tempo.

O que os hinduístas sugerem, e alguns cientistas estão chegando lá, é que as manifestações são aparentes, que ao observador parecem ser desta ou daquela maneira, mas que rigorosamente é tudo apenas aparência. Em outros referenciais, aquilo poderia parecer outra coisa. Quando se pratica meditação, serena-se a capacidade de interpretar as aparências, cessa-se de dar atenção às aparências, deixa-se de ficar percebendo aquilo que se oferece neste contexto de espaço-tempo. Os pensamentos ficam serenados, a tal ponto, que se podem obter insights: captar algo além do espaço-tempo.

Eu, você e todo o mundo está muito mais habituado a exercer a inteligência social. Uma forma de reduzir um pouco essa predominância é criar novos hábitos; e eu só crio um novo hábito fazendo, praticando um outro rumo. Posso praticar Yoga, meditação, relaxamento e repouso com habitualidade, para abrir essa possibilidade de viver também o não espaço-tempo, o que não é social, aquilo que é essencial. Cada um vai descobrir, na medida em que permitir a si próprio fazer isso, porque essa é uma vivência intransferível.

Thadeu Martins

      

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