A divina consciência de cada dia

Na origem da filosofia hinduísta estão os "Vedas" e a partir deles, o Sâmkhya, o Yoga, o Vedanta (final dos "Vedas") e outras escolas de pensamento. Há um aparente ateísmo no Sâmkhya e, de certo modo também, no Vedanta, mas há um aparente teísmo no Yoga. No fundo, tudo está meio misturado: há uma compreensão da consciência como princípio divino como algo que não é personificado e há também, culturalmente, religiosamente, o costume de personificar a consciência, a divindade primordial.

Assim, as escolas do pensamento hindu propõem um caminho filosófico e não religioso. Algumas delas afirmam que o espírito individualizado permanece desta forma: a consciência originária de tudo se desdobraria nas várias espiritualidades individuais e esse desdobramento sempre permaneceria. Para outras escolas, essa individualização é pura idealização, a partir da experiência terrena de ser indivíduo, num todo que é coletivo; tudo seria uma grande ilusão.

Observo como as tradições do pensamento vão-se alternando nesses pontos de vista. Mas, independentemente do indivíduo integrar-se ou não ao todo, há em todas as escolas a compreensão dos princípios da consciência e da ilusão de realidade. Na medida em que a experiência da percepção é muito marcante, experimenta-se e toma-se o experimentado como verdade. Porém, o perceber está sempre referenciado ao percebedor. Eu, você e todo o mundo, cada um tem a sua percepção da realidade, da aparência da realidade.

No Yoga e no Sâmkhya, a compreensão de tudo parte da derivação original de uma unidade, que é simultaneamente duas: "purusha" e "prakriti", a consciência e a natureza que se manifesta para a consciência. "purusha" é a pura consciência, percebe-se "prakriti" pelo reflexo de "purusha". Eu, você e todo o mundo, cada um é constituído de ambas. Então, tenho a compreensão do todo pela manifestação; compreendo aquilo que se manifesta e não tenho a experiência daquilo que não se manifesta, porque não posso experimentá-lo. Esse princípio está na base de todo o pensamento filosófico hinduísta.

"Purusha" é a consciência que de nada precisa, que não se ilude. As primeiras manifestações de "prakriti" são "Mahat" (a mente emocional) e Buddhi (o Mercúrio dos romanos, o Hermes dos gregos, o Trimegistro dos alquimistas), aqueles que no indivíduo permitem o acesso à percepção e à compreensão. Buddhi é o gestor intelectual da mente, que de uns trezentos anos para cá, no ocidente, acabou virando sinônimo de consciência. Mas no hinduísmo, mente é "chitta", o complexo mental; a consciência ("purusha") vem antes, é a consciência que viabiliza tudo o que se manifesta.

Em Yoga, estimula-se o entregar-se a essa consciência primordial, por meio de prestar atenção; por simplesmente perceber o que estou fazendo e, principalmente, tentar perceber como é que eu estou, quando faço algo. Isso, porém, é bem exigente, pois, quando me envolvo com alguma coisa, tendo a desligar-me de mim. No entanto, posso fazer as coisas de forma atenta, posso no mínimo melhorar minha condição de conforto, pois se o que faço não está confortável, o melhor seria parar; porque continuar desconfortável não será bom para mim.

É surpreendente como coisas simples, desse tipo, mudam uma vida de forma extraordinária. A vida passa a ser muito mais fácil e interessante, quando realizo a consciência. Desse modo, cada vez que percebo algo, realizo uma virtude, compreendo um significado, crio ou capto uma ideia, tenho acesso ao "lago da memória", à consciência universal.

Por isso, a ênfase em Yoga de praticar a atenção, no cotidiano, para cada vez mais ter clareza de que tudo o que vivencio é aparente, passageiro, é uma manifestação circunstancial, que só tem importância no contexto em que eu estiver. Vou assim me habituando a perceber os contextos, a dar importância a ele, porém, também cultivo o afastamento das aparências. Vivencio o momento e, ao mesmo tempo, cultivo esse estado de consciência que se afasta da manifestação. Não deixo de manifestar-me, porque isso seria impossível de acontecer, afinal sou matéria, constituído pela dualidade "prakriti" e "purusha". Não há uma delas separada da outra, nem eu existiria sem a unidade que elas me permitem ser.

Vou acentuar agora que a percepção do que não se manifesta é quase possível pela não ação, que acontece por acaso ou cultivada. A orientação prática de Yoga viabiliza esse propósito. Essa prática foi ganhando acréscimos de toda ordem. Na proposta original, sistematizada pelo sábio Patânjali, não havia exercícios, mas sim o cultivo da não ação, da plena atenção. Ele recomendava o cultivo da atenção à vida social, para alcance da harmonia possível, e indicava o estudo (e o autoestudo) para reduzir a ignorância. Os únicos exercícios físicos, propostos por Patânjali, eram o controle da respiração e a meditação. Ao habituar-me a controlar a respiração, estou fazendo o principal exercício propiciador do estado de transe, de insights. Quando sereno a mente (estado de não ação), como se ela pudesse ficar cristalina como a superfície de um lago, eu estou, por assim dizer, refletindo a consciência, a divindade, aquilo que não se manifesta. O caminho para que essa condição especial aconteça é o da entrega à vida, algo que pode ser cultivado por mim, a cada novo dia.

Thadeu Martins

      

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