Consciente com o coração presente

Para a compreensão de como é o "eu", fiz menção a uma inteligência essencial, primitiva, que antecede a inteligência lógica e racional, com a qual se está acostumado a lidar na vida social. Poderia dizer que existe um "eu" primeiro, uma consciência tão primordial, a qual nem consigo ter acesso, normalmente. Para fazer uma analogia, vou lembrar da codificação do genoma humano, o qual até consegue-se mapear, ver-se o efeito, mas não se tem acesso à inteligência que o concebe.

A codificação interna do genoma é de uma inteligência extraordinária. Ao ponto de determinar as pré-condições físicas dos seres. Os cientistas até conseguem mapear o DNA, mas não podem saber, por exemplo, por que a mosca tem 10 mil genes e o homem 30 mil ou por que os genes se agrupam de uma determinada forma e não de outra. Embora seja bem evidente a existência de uma consciência absolutamente primordial, ela não é percebida diretamente.

Em outro extremo, há esta inteligência realizadora da vida social, minha, sua e de todo o mundo, relacionada aos objetos da ação, com os quais se interage. De um lado, tem-se uma consciência, um "eu" ao qual não se tem acesso; de outro lado, tem-se um "eu" totalmente referenciado aos objetos da ação. Têm-se também alguns "eus" intermediários. Quando levo um susto, não tenho tempo nem de pensar, mas tomo consciência do susto. Dou um pulo, um grito. Não preciso de uma consciência lógica para tomar susto. Tenho também uma outra consciência que irá racionalizar o susto: por que me assustei?

Estou falando então de quatro consciências: a inacessível, a referida aos objetos, a afetiva (pré-racional) e a intelectual. Na compreensão hinduísta, esses quatro "eus" têm nomes. O primeiro é "purusha", "atma", o referencial absoluto do princípio divino da vida. É a consciência. O segundo é "ahankara", o ego, referenciado aos objetos, à densidade ("thamas"). O terceiro é "mahat", o pré-racional, relacionado às emoções, e o último é "buddhi", o intelecto.

Tenho, portanto, um modelo, uma alegoria, que ajudaria a compreender o que sou afinal. E analisando esse modelo, percebo que as emoções ("mahat") estão próximas do princípio divino ("purusha"). Quem atrapalha (e às vezes ajuda) ou intermedeia é a racionalização ("buddhi"). O ego ("ahankara") atua na realidade filtrada pelas emoções e racionalizações.

Vou-me deter nessa relação, por vezes conflituosa, entre o agir ("ahankara"), o sentir (mahat) e o pensar (buddhi). Os três são geradores de percepções, de impressões dos resultados de suas respectivas atuações. Esses resultados são memorizados, sob formas que irão manifestar-se, geralmente fora do meu controle, ou como reminiscências ou como tendências ou impulsos para a ação. Quanto mais me deixo levar pelas manifestações mentais que brotam dessas reminiscências, tendências ou impulsos da memória, mais embarco num mundo fantasioso, num fluxo social que aparenta ser a realidade. Saio, assim, de mim mesmo para um mundo virtual, a ponto de viver uma vida totalmente dedicada ao que não pertence de fato ao presente. Sem perceber, deixo levar-me, perco o controle da situação, fico entregue a chuvas e tempestades forjadas. Portanto, os sustos e desconfortos ficam mais frequentes e sucessivos.

Com a prática de Yoga, sou estimulado a cultivar o meu próprio ritmo por meio do cultivo da consciência, da compreensão das origens das reminiscências e dos impulsos da memória, com ênfase na relação entre o sentimento e o intelecto, para lidar com a realidade.

O sábio Patânjali focaliza a atenção para lidar-se simultaneamente com o mundo, com as pessoas e com os "eus", que cada um tem em si mesmo. Segundo ele, devem-se exercer plenamente os papéis sociais, mas é tão ou mais importante harmonizar a emoção e a razão, de modo a perceber que todos os fatos, com os quais se lida, são circunstanciais. Eles também podem ser vistos, ou sentidos, com distanciamento. De que forma? Esvaziando as emoções de conteúdos que são prejudiciais, compreendendo o significado da aparente realidade ou das emoções.

Assim, posso apaziguar a mente a ponto de ela ficar bem próxima da consciência essencial ("purusha"), que não é passageira como os fatos, e posso lidar com a realidade de modo menos distorcido pelas minhas interpretações. Desenvolver a consciência nada mais seria do que tirar o envolvimento que o susto, o intelecto e a ação acrescentam à consciência original. Isso não é pouco!

De início, precisei manter o hábito de estar atento, harmonizado. Um exercício prático tem sido analisar minhas próprias emoções. Fecho os olhos e percebo o pulsar do meu coração. Assim, já me estou abstraindo do mundo social, deixando o ego sossegado, desde o momento em que a minha mente intelectual ficou voltada para a mente afetiva. Estou colocando em sintonia o coração e a mente, o cérebro da cabeça e o cérebro do coração.

Eu posso fazer agora um exercício para aumentar a minha capacidade de atenção. Sabendo que o coração tem um ritmo, uma atividade, uma energia, que é a energia da respiração, levo agora a atenção simultaneamente para o coração e para o pulsar da respiração. Percebo, quando respiro, uma certa quantidade de pulsos, de batimentos cardíacos. À medida que vou respirando, o meu batimento cardíaco altera-se levemente. Vou prosseguir com essa atenção, por alguns minutos, percebendo o ritmo da minha mente. Imagens, pensamentos e lembranças vão surgir, mas eu estarei no controle. Quando sentir que algum pensamento ou imagem estiver me levando, voltarei a observar a pulsação do coração e o ritmo da minha respiração. Assim estarei fazendo o distanciando das reminiscências mentais. O objetivo do exercício é cultivar esse hábito de estar no controle, de observar-me diariamente. Que tal você tentar fazer esse exercício agora mesmo?

Thadeu Martins

      

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