O "eu" que lembra

Eu, você e todo o mundo tem uma predisposição ao aprendizado e à medida que se vai convivendo com os outros, com o mundo, essa predisposição vai-se concretizando e a pessoa torna-se aquilo que está sendo. Esse processo de aprendizado vai-se dando com o registro de memória. Não sei ao certo como o registro ocorre, nem como se recupera esse registro. O fato é que a memória vai-se estabelecendo. A manifestação dessa memória é um grande desafio de controle. Em várias tradições, como em Yoga, trabalha-se o isolamento dessas reminiscências que se conseguem perceber, para olhá-las com distanciamento, compreendê-las e tentar incorporá-las ou neutralizá-las.

Um dos propósitos em Yoga é a criação de um novo condicionamento em relação a essas reminiscências, para quando elas voltarem a aparecer. Basicamente é um exercício de apaziguamento, de distanciamento, em que se observa o pensamento e a emoção. Nesse exercício, eu me pergunto, por algumas vezes: – "por que isso está surgindo?". Não sei como, mas a compreensão acaba surgindo. Vou então convivendo com a compreensão da resposta à pergunta e, assim, prossigo até nova compreensão.

O que percebo, tanto na tradição milenar do Yoga, quanto em tradições mais recentes, como a psicologia, é que esse exercício faz com que se consiga superar, sublimar e até anular as reminiscências, que em geral são muito fortes. Além do exercício de meditação, que leva a essa capacidade de observar-me, há recursos simples, do tipo lápis e papel na mão, para facilitar a tarefa.

O que eu pratico é o seguinte: durante a meditação, ao observar o fluxo dos pensamentos e quando surge um pensamento, com o qual eu tenha interesse em lidar, tento compreendê-lo: percebo qual é a emoção e lembro-me de quando ele surgiu em vezes anteriores. Então, anoto no papel, descrevo o pensamento e as emoções envolvidas. A ideia é aumentar o distanciamento em relação a esses sentimentos e a compreensão intelectual deles. Depois de escrever, rasgo e jogo fora o papel. O fato de saber de antemão que a anotação será destruída já me libera de uma crítica, que estaria presente pela ameaça disso ser revelado, pois é algo que só diz respeito a mim (como se fosse um segredo). Esse tem sido um método bastante eficiente.

Ao refletir sobre o pensamento e as emoções em questão, eu posso também me perguntar sobre a seguinte dicotomia: a situação exige ação ou perdão? Se há alguma ação, que se justifica, a ser realizada, eu registro: há algo a ser feito em relação a essa situação. Caso não haja nada mais a ser feito, eu também registro: nada mais há a fazer, só o perdão. Muitas vezes, faço o exercício todo em voz alta, quando estou passeando com o meu cachorro, o Badá; ele não está nem aí, e eu aproveito muito do fato de estar só com ele nessas horas.

Esse exercício me permite o distanciamento, porque na situação de conflito, por exemplo, fico envolvido pelas circunstâncias. Passado o momento, é que tenho a facilidade de racionalizar. Olhando com distanciamento posso até rir daquela situação. Assim, vou-me habituando a ficar tranquilo diante dos pensamentos, da realidade e das emoções para poder lidar com os fatos, da forma menos deturpada possível pela herança de memórias, de experiências, pela fantasia que crio na minha relação com a realidade.

Thadeu Martins

      

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