Eu “profundis”

Quero comentar um pouco mais o fato de se ter pelo menos quatro "eus". Há uma inteligência profunda ao qual raramente tem-se acesso, se é que se tem algum, mas que está presente em mim, você e todo o mundo. Exemplos dessa inteligência são o DNA e o sistema nervoso autônomo, que funcionam bem em mim, quando eu não atrapalho. É uma inteligência absolutamente evidente, embora não se possa pegá-la ou dialogar com ela.

No outro extremo, há a inteligência do eu que realiza as ações, que vive o cotidiano, que é o sujeito das minhas ações. Ao contrário do "eu" primordial, sutil, este é material, porque só existe na relação com os objetos; é o "eu" que faz as coisas. Um é inacessível e o outro é totalmente acessível. Outro "eu", que está próximo do primeiro, é o "eu" que leva susto, que antes mesmo da possibilidade de raciocinar, percebe a realidade e é capaz de emocionar-se com ela, independentemente de qualquer racionalização. Por último, o "eu", também próximo do "eu" das ações, e que racionaliza. É o "eu" que pensa, que usa o intelecto, que cria compreensão e significados.

Quanto mais me afasto do "eu" inacessível, do "eu" mais profundo, mais me aproximo dos "eus" mundanos, que lidam com a realidade, com os outros, com o mundo. A distância entre o profundo e os demais é intermediada, o tempo todo, pela emoção e pelo significado que a realidade me proporciona. A realidade pode ter várias compreensões. Por exemplo, na abordagem budista, o "eu" é um "não eu", ou seja, não há um "eu". Já para o Vedanta, ramo da filosofia hinduísta, o "eu" existe, mas o mundo não existe, porque o mundo é uma ilusão. Na escola do Yoga, o "eu" existe, o mundo existe, mas a relação entre o "eu" e o mundo é ilusória.

A justificativa dessa ilusão é o fato de haver a intermediação dos "eus", o emocional e o racional, entre o "eu" primordial e o "eu" realizador das ações. A ação desse "eu" realizador é vista com significados, provoca emoções, e a percepção dos resultados das ações vai gerar memória. Quando lido com a realidade, essa resulta; percebo a realidade resultante, enquanto a percepção transforma-se em memória. E assim a vida prossegue, com esses processos de intermediação e memorização acontecendo simultaneamente.

A emoção que sinto e os significados que atribuo tanto aos resultados como à própria realidade, vão conformando dentro de mim um panorama, que não é propriamente a realidade, mas apenas a minha interpretação dela. É como se eu vivesse um videogame particular, conforme o conjunto das memórias que estabeleci e a forma como recupero essa memória e lido com ela. Basicamente lido com estes dois aspectos: o emocional e o de significados; e parece-me estar lidando com a realidade propriamente dita.

Posso acrescentar um complicador ou fator de beleza, que é o seguinte: o conjunto de significados e memórias, quando compartilhado por muitos indivíduos, forma cultura e a partir do momento em que esses indivíduos vão convivendo entre si, assim formando civilizações, vai sendo criado um suprassignificado, que alguns chamam de arquétipos. São os significados culturais. Esses campos de significados e de emoções não só estão referenciados a cada uma das pessoas, como indivíduos, mas também são referenciados à geração na qual se nasceu, àquela que a antecedeu, à que vai sucedê-la e a um determinado momento na história. Quanto maior esse momento, maior vai ser o campo de significados que estarão se referindo a mim e às pessoas da "minha época".

Quando embarco nesse desafio, de querer compreender a realidade, deparo-me com alguns significados que reconheço com muita facilidade, porque eu mesmo os incorporei à minha vida (mesmo que inconscientemente). Mas, de vez em quando, esbarro com alguns significados que me surpreendem totalmente, que não tenho ideia de onde surgiram. Talvez estejam relacionados aos suprassignificados, os significados culturais, que, sei lá porque, não os tive assimilados, ou que sejam novos de fato, em gestação por um novo momento cultural.

Destaco, portanto, um processo de estabelecimento de memória a partir da experiência de vida. Essa memória pode manifestar-se, seja por impulsos, por reminiscências ou por outra denominação dessas manifestações. Elas vão brotar, de tudo que seja fruto da minha vida, das vidas que me antecederam e daquelas com as quais eu convivo. Também sigo a ser condicionado pela cultura e pelo ambiente no qual vivo, pelas condições do meu corpo, pela minha forma de respirar, pelo meu próprio comportamento.

A sintonia com a inteligência primordial, o "eu" produndo, é frequentemente representada com a imagem idealizada de "manter a mente serena, como a superfície de um lago, capaz de refletir a inteligência inacessível conscientemente"; mas a prática não tem nada de idealizada, tem sim de bastante empenho e dedicação: preciso prosseguir continuamente a depurar os envolvimentos que são criados pelas minhas emoções, pelos significados que elas têm para mim e pelas minhas ações, porque qualquer vento ou marola faz a superfície do lago agitar-se. Talvez a camada do lago a ser focalizada seja também mais profunda.

Thadeu Martins

      

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