Distanciamento para “cair em si”

Tenho conversado sobre algo essencial na prática de Yoga: a compreensão de que as relações que se estabelecem com os outros e com o mundo é ilusória. Não é ilusória no sentido de que não exista, mas porque essa relação é intermediada pelos sentimentos e pelos significados que eu percebo ou atribuo a mim, aos outros e à realidade.

É como se eu, você e todo o mundo, no lidar consigo próprio, com os outros e com o mundo, fosse criando um videogame, uma realidade aproximada. Cada um percebe a realidade de forma diferente e as percepções de cada um são aproximadamente parecidas, não são rigorosamente iguais. Esse perceber, de modo diferente, torna esta vida ainda mais diversificada. A questão-chave é a importância que se dá às coisas. A partir da importância que eu dou a um determinado fato, terei um nível diferente de envolvimento emocional. Portanto, cada um é afetado pela respectiva percepção da realidade.

Na perspectiva pessoal, o que importa é o que percebo, o que sinto quando vivencio os meus papéis sociais. Porém, o que vivencio é intermediado, o tempo todo, pelos sentimentos que tenho e pelos significados que atribuo. Então, preciso manter um foco nos significados e sentimentos. Poderia perguntar-me: será que essa situação exige um sentimento tão profundo? Muitas vezes, eu supervalorizo uma situação que nem merece tanto. Quando alguém disser: o Thadeu "está fora de si"; que "si" é esse? Deve ser alguém muito anterior dentro de mim, que não se abalaria diante dessas situações factuais, que não são tão importantes assim, em termos absolutos ou referidos a outros avaliadores (diferentes do "Thadeu fora de si").

Como posso então continuar em mim mesmo e, ao mesmo tempo, vivenciar a realidade? Talvez seja uma grande mudança de comportamento. Para lidar com ela, como grande mudança, terei dificuldades se não tiver método, propósito, ajuda ou fé. Na prática de Yoga, há um estímulo para ter-se a compreensão de que tudo é real, e que a relação entre mim e tudo é ilusória, e de que existe um "eu" interior, o qual não se abala diante da minha interação com a realidade. Assim, é sugerido que se pratique, com frequência, o distanciamento para observar a realidade, de modo que o distanciamento torne-se um hábito.

Eu vivencio o cotidiano, atribuo significados aos fatos e às coisas com as quais convivo. Mas, assim que a situação acontece, devo refletir um pouco sobre essa situação, para habituar-me a cair em mim mesmo, a distanciar-me dos significados, dos sentimentos que atribuo às coisas ou aos fatos.

A ideia, que está no pano de fundo, é que posso promover mudanças paulatinamente, pois é complicado mudar bruscamente. É preciso a formação de um hábito diário. Assim vou criando um novo condicionamento, que vai ajudar a "descondicionar"-me do hábito de achar que todas as interações, que eu tenho com a realidade, são a coisa mais importante no mundo. Elas são relativas. Posso perceber a relatividade delas se parar um pouco para afastar-me da situação e olhá-la com outros olhos, que seriam como se fossem do "eu" interior, daquele que vê sem a intermediação dos sentimentos, das emoções e dos significados.

Esse "eu" interior é muito citado no Yoga Sutra do sábio Patânjali. É o Ser, a alma, "purusha", "atman". É o "eu" primordial, inabalável, que antecede o "eu" sujeito das ações no cotidiano. Então, quando cultivo a prática de meditação, a tranquilidade, o relaxamento, quando olho as coisas e fatos esvaziando-os de significados e emoções, eu me "aproximo" do "eu" interior. Claro que vou deixar o "eu" das ações prosseguir agindo, pois afinal vivo nesta realidade: realizo.

Mas o que isso teria a ver com os exercícios de Yoga que se praticam? Originalmente, os exercícios indicados por Patânjali buscavam, além da compreensão do comportamento, uma postura firme e confortável que possibilitasse a meditação e a atenção com a energia vital e com a consciência. Para isso, era preciso concentrar-se na respiração, pois esta segue o ritmo da energia aplicada ("prana", do sânscrito). As posturas, associadas à atenção com a respiração, acabaram originando dezenas de exercícios, numa época posterior ao surgimento dos sutras de Yoga. No entanto, os exercícios devem ajudar a cultivar atitudes propiciadoras do hábito da atenção, senão, perde-se o sentido original do propósito de Yoga.

No Instituto de Yoga, lá em Mumbay, orienta-se a praticá-los de modo associado a quatro atitudes: (1) o sentido de ordem, de dever em relação à vida no mundo com os outros, propiciado pelas posições meditativas; (2) a tomada da consciência na realidade, que o corpo propicia, quando se fazem os alongamentos verticais ou laterais, quando se percebem os próprios limites, quando se aguça a consciência interior, a partir de exercícios respiratórios ("pranayamas") e meditativos; (3) a entrega e o desapego, que permitem o distanciamento da realidade, associados ao movimento respiratório de expirar e de se entregar (por exemplo na posição do "yoga mudrá"), em que se abre mão do controle e deixa-se a vida prosseguir; e (4) a autoconfiança, que se dá com o atendimento das outras três. Realizado o ordenamento, a compreensão e o desapego, vou então cultivar a autoconfiança. Ela é cultivada pelos exercícios em que se arqueiam as costas (para trás), inspira-se, abre-se o peito.

À medida que exercito o corpo, permito que todos os sentidos participem dessas quatro atitudes, vou-me aproximando da minha memória profunda, de modo a "descondicionar" e recondicionar, no sentido de reforçar a autoconfiança, o desapego, a compreensão e o ordenamento na realidade. Os exercícios passam a ganhar maior importância nesse contexto. Eles não são um fim em si mesmos.

O propósito é viver com a compreensão de estar em mim, de lidar com a realidade, sabendo que ela é real, mas que a minha compreensão é ilusória, pois está misturada com os sentimentos e os significados que atribuo a tudo. Assim, vou cultivando pré-condições, de modo que me sinta confiante diante da vida, desapegado, com capacidade de compreender o que me cerca, para poder distanciar-me ou aproximar-me, conforme as circunstâncias e, ao mesmo tempo, com capacidade de viver esta ordem em que estou (da natureza da vida).

Thadeu Martins

      

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