Com olhos de ver

A prática de Yoga é bastante intensa, pois desperta a atenção para focalizar o fenômeno da consciência. Isso cria uma mobilização diferente da habitual, que se dirige para a produção, para a sobrevivência, desde que eu, você e todo o mundo nasce. É claro que, antes do estímulo social, têm-se muitas experiências emotivas, pois recebe-se atenção dos adultos, quando se é criança. Há duas alimentações muito fortes de início: a afetiva e a de comida mesmo. Há também um grande estímulo para que se corresponda ao afeto e ao alimento. Depois de um certo tempo, vem a cobrança para um comportamento conforme os adultos gostariam. Até chegar o momento em que sou cobrado a produzir. Vai havendo uma pressão enorme nesse sentido. Assim, sou levado por essa corrente de produção, e esse movimento passa a ser a vida, predominantemente.

Quando converso sobre prestar atenção aos limites, a mim mesmo, ou em perceber os sentimentos e evitar a ação, sinto um choque inicial. Como assim não agir, se fui educado a agir desde criança? Mas vou aos poucos percebendo que isso também faz sentido. As coisas passam a ser percebidas de um modo diferente. À medida que me vou habituando com essas diferenças, começo a perceber muitas coisas que eu antes não percebia. Começo a sintonizar-me em muitas coisas que antes passavam despercebidas. Então, começo a perceber desdobramentos, que vão além do social e do físico; amplio a capacidade intuitiva, por exemplo. Em Yoga, além de trabalhar a mente, perceber o que está além do corpo de comida, também interfiro em memórias musculares ancestrais, porque o comportamento também é memorizado.

Aproveito, agora, para observar um aspecto da realidade usualmente não considerado: tudo está conectado, como se tudo fosse um mesmo corpo físico. Mesmo no Ocidente, já na época de Einstein, era aceito que partículas extraordinariamente distanciadas estavam conectadas a ponto de interferirem mutuamente em suas polarizações, mesmo não havendo nenhuma aparente conexão física entre essas partículas. Enquanto na compreensão hinduísta, eu, você e todo o mundo é "prakriti" (a matéria que se manifesta). Assim, por distintos pontos de vista, afirma-se que há uma conexão real permanente. Além de ser "prakriti", também se é "purusha" (a "alma" referencial, livre da manifestação). Na linguagem alegórica, poética, religiosa, quando se diz "namastê", está-se dizendo que "a divindade em mim saúda a que há em você", mas ambas as divindades são a mesma ou o mesmo "purusha". Muitas vezes, é difícil a compreensão dessa sutileza, que é essencial.

Patânjali, no terceiro capítulo do Yoga Sutra, fala dos poderes ("siddhis"). Ele afirma que ao desenvolver-se a mente, a ponto de focalizar a atenção totalmente em algo, acaba-se percebendo a essência desse algo. Essa essência não é dada pela aparência visual. Vai-se penetrar e ter acesso a algo muito diferente daquilo que está aparentemente demonstrado.

Quando se aguça a percepção, começa-se a perceber muito mais do que se percebia antes. Imagine expandir a sua capacidade olfativa, tátil, visual, perceptiva de modo geral. Imagine também a conexão dos seus sentidos se expandindo. Porém, como essas possibilidades são muito sedutoras, Patânjali faz um alerta: aprofunde-se, e mantenha-se íntegro, caso contrário poderia ficar encantado com a novidade de ter os sentidos apurados. Como o foco em Yoga é o de cultivar a atenção, o cuidado correspondente é para evitar a dispersão.

Thadeu Martins

      

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