Yoga e “vidagame”

Ao longo das conversas, tenho chamado atenção para o fato de que tudo aquilo que percebo e vivencio está sempre filtrado por muitas lentes, pelo sistema físico, que tem o papel de traduzir e reunir percepções. Essas se transformam em significados e emoções que passo a chamar de realidade.

Mas, desse modo, a minha realidade é um videogame constante, em que fico, o tempo todo, no jogo da percepção da realidade. No fundo, eu lido mesmo é com as percepções, não com a realidade. O que sei da realidade é o que me chega pela percepção, pelo meu videogame personalizado. Isso faz a vida ficar muito interessante, até porque eu, você e todo o mundo tem o próprio videogame. Esses videogames têm muito em comum. Por meio deles, vão-se compartilhando as compreensões conforme a época em que se vive.

Observo, porém, tanto no hinduísmo como em outras tradições filosóficas, que se chama a atenção para o fato de o viver dar muitas oportunidades para o sofrimento; pela constância de viverem-se emoções associadas aos significados daquilo com o que se está interagindo, e também porque o ser humano tem geneticamente a predisposição de dar mais atenção às notícias ruins. Um dos traços humanos é essa propensão ao sofrimento. Por isso, Patânjali e outros sábios orientam a prestar atenção às movimentações mentais para que, no momento em que se enveredar pelo caminho da notícia ruim, possa-se interromper esse processo autodestrutivo.

Como geneticamente estou mais preparado para dar atenção ao que é negativo e ameaçador, naturalmente eu entraria no caminho da negatividade; por ser mais frequente lembrar-me de fatos ou sensações ruins. Para contrapor-me a essa tendência "natural", sigo uma dica de Patânjali: quando percebo que estou indo no caminho dos sentimentos nocivos, mudo o videogame, saio da cena que me está fazendo sofrer e vou para outra (já que o videogame é meu), na qual me sinta mais leve e melhor.

Claro que essa mudança não é assim tão fácil, pois estou acostumado com o jogo do sofrimento. Eu habituei-me a jogá-lo. Mas basta começar um outro jogo, para propiciar a mudança positiva. A vida dá uma vantagem também natural: a flexibilidade emocional. Tanto eu, como você e todo o mundo consegue passar, num estalar de dedos, do choro para o riso. É surpreendente!

A principal dica é estar atento. Se eu prosseguir convencido de que vivo um videogame, que a minha relação com a realidade está sempre marcada pelo jeito como a encaro, tudo muda. Eu passo, portanto, a ter a escolha de apegar-me ou não à desgraceira.

Como sou um ser afetivo (assim como você), na hora em que ocorrer uma tragédia, eu vou envolver-me e sofrer, vou vivenciar com profundidade. Depois que a emoção resolver-se, o momento também terá passado. Tudo passa! Já que passa, não há por que ficar esticando o sofrimento, ficar trazendo do passado as sensações negativas, uma vez que os fatos que as provocaram não existam mais. As fatalidades havidas são fatos passados.

Então, vivencio o momento, deixo-me passar pela emoção até que essa passe, e sigo em frente. Se a situação ficar voltando, saio dessa sintonia. Avalio a situação, anoto as providências que devem ser tomadas, para que não fiquem voltando, ou decido perdoar-me e seguir adiante. Mantenho-me assim no domínio da situação, com distanciamento para olhar a realidade com outras emoções, mais positivas para a vida, e poder perceber a beleza da oportunidade que é viver.

Thadeu Martins

      

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