A realidade como ela é percebida

Segundo a filosofia Yoga, há cinco modificações da mente, as quais deveriam ser compreendidas e controladas para manter-se um estado de plena atenção: o conhecimento correto, o conhecimento errado, a imaginação, o sono e a memória. Conforme Patânjali, o conhecimento correto é quando apreendo a realidade do jeito que ela é. Isso seria possível pela apreensão direta ou pela dedução lógica ou pela transmissão por alguém que tenha autoridade. O conhecimento incorreto é quando tomo o real por aquilo que não é. Ou seja, é o conhecimento cujo fundamento não é real, embora possa ser útil provisoriamente.

A imaginação é aquilo que não tem sequer referência na realidade. Quando falo em conhecimento, refiro-me a uma iniciativa de apreender algo. Na imaginação, não apreendo nada, estou é "criando" realidade e forjando percepção. A imaginação não é apreensão da realidade.

Quanto ao sono ("nidrá"), sugere-se, em Yoga, que não se o torne dispersivo, que se mantenha a consciência mesmo durante o sono. Então, ao dormir, eu deveria ter a intenção de manter-me consciente. Como a mente vai transitando do estado de agitação para um estado mais sereno,vou assim, acalmando-me. Fico no limiar da vigília e do sono, acordado e dormindo. Com a prática, esse estado de transição começa a acontecer. Se permanecer consciente e começar uma viagem onírica, passo a ter a sensação de estar em outras dimensões, fora do espaço-tempo. Com o hábito, isso passa a ser normal.

Os yogues sugerem que isso seja praticado, para que se mantenha o estado em que se é observador de si próprio. Não se fica no sonho querendo atuar, apenas observar. Nesse estado em que me mantenho como observador, diante no mundo onírico, não há modificação da mente (pensamentos ou reminiscências). Claro que, como estou consciente, depois serei capaz de verbalizar a experiência. Não por acaso, os linguistas e os filósofos enfatizam que a palavra é o veículo de humanidade, pois permite a compreensão e o acesso ao "lago da memória", que fica além da dimensão espaço-tempo e onde estão os significados: as emoções com significados, que foram produzidos por todos que vivem, viveram ou ainda viverão.

Faltou falar da memória, que ficará para outra conversa. Antes dela, quero ainda explorar mais as limitações da percepção da realidade. Fui educado, desde pequeno, a perceber a realidade como sequencial. Assimilou-se isso como verdade absoluta, tanto que, no auge da física clássica, na época de Newton, estabeleceu-se como lei a causalidade: uma coisa provoca outra. Lembro, então, das leituras do McLuhan, de como o olhar funciona que nem a "marca do Zorro", faz um "Z", enquanto os olhos parecem mirar em linha reta. Lembro também, de textos mais recentes, que a cada olhar tem-se acesso a um gigantesco volume de informações, embora o cérebro só capte aparentemente uma ínfima parte. Na prática, eu, você e todo o mundo é, e sempre foi, portanto, um ser seletivo, que elimina o excesso de informação a considerar, quando é necessário tomar alguma decisão.

A localidade, a causalidade e a linearidade, portanto, podem parecer determinantes, mas nem sempre são, porque o que se acha que é causa não leva necessariamente ao que se acha que é efeito. As "causas" e os "efeitos" se correlacionam, mas, necessariamente, um não implica o outro. Há vários exemplos disso, como se observa nos casos de raciocínio indutivo. A percepção do mundo de forma sequencial e hierarquizada é civilizatória, cultural, ela não é tão natural como é habitual compreendê-la. Os pesquisadores de vários campos, como os da comunicação, física, psicologia e economia, vêm constatando esse fato, cada vez com mais clareza.

Portanto, em vez de lidar com a realidade, eu lido mesmo é com a realidade percebida. A percepção da realidade é sempre intermediada pelos sentimentos e pelos significados que se atribuem à realidade e também aos sentimentos. O real para cada um não é o real propriamente dito, é aquele que cada um percebe atribu com os seus valores, sentimentos e com a cultura que lhe antecede.

Um grande desafio, no caminho do Yoga, é reeducar a percepção da realidade, para reduzir as interferências acrescentadas pelos significados e emoções particulares e pessoais, e assim propiciar a apreensão direta, a dedução, ou o reconhecimento do conhecimento verdadeiro, já produzido. Dessa forma, a realidade poderia ser vista, por mim, por você e por todo o mundo, de modo mais parecido com o que de fato é, em sua plenitude e multiplicidade.

Thadeu Martins

      

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