Graças ao "eu"!

Na concepção da escola hinduísta Sâmkhia, a vida se dá a partir de uma dualidade básica: matéria ("prakriti") e o referencial para o qual esta se manifesta ("purusha"). Isso simplesmente surge, segundo o Sâmkhia. Não haveria, portanto, uma entidade criadora ou um tempo anterior a essa dualidade.

Para o Sâmkhia, não existe um ser divino, criador de tudo. As coisas são e acontecem. Não há um propósito. Já no Yoga, que aproveita muito do Sâmkhia, o sábio Patânjali acrescenta uma entidade: "Ishvara", um ser especial que representa a divindade da vida em cada vivente. O "yoga mudrá", a postura típica, sentada com inclinação para frente, de pernas cruzadas e com as mãos para trás, que estimula a entrega e o desapego, é alusiva ao "Ishvara pranidhana", ao render-se ao ser divino, a Deus. Mas que Deus é esse "Ishvara"? É um ser que representa o máximo da perfeição, aquele que não se corrompe, não se deixa levar pelo mundo, que não se abala pelas emoções. É uma referência da divindade. Claro, portanto, que não há, em Yoga, qualquer restrição à prática religiosa ou à concepção que eu, você e todo mundo, tenha ou queira ter do que é divino. Cada um vivencia a sua fé, a sua crença com a intensidade que ela inspirar.

Patânjali afirma que uma das melhores maneiras de se meditar é pela fé. Ele adotou todo o conhecimento filosófico do Sâmkhia e incorporou esta característica bem humana, que se relaciona, que estabelece relações pessoais de promessas e dívidas. Uma das maneiras de se meditar, portanto, é rezar. Para quem rezar? Para quem eu quiser; depende da minha crença ou convicção pessoal. Mas se for para rezar, reza-se com fé!

Posso depreender que a vida é algo divino. A vida é o máximo! Nela tudo é "lucro". Talvez o sentido da vida seja perceber o valor de estar vivo e prosseguir vivendo. É evidente que a vida é um processo complexo, que funciona de modo extraordinário e que vai muito além do que consigo imaginar ou controlar. Tenho a sorte (muita sorte) de poder viver. Compreende-se a vida usando o instrumental que se ganhou, aprendeu e desenvolveu. Cada um vai percebendo o valor da vida do seu próprio jeito, conforme a sua história pessoal. Alguns têm a sorte extraordinária de dispor de muitos recursos para perceber a beleza que a vida é e a ela se entregar. Há muitos que só aprenderam a sofrer.

Dizem que o sofrimento decorre de um vazio existencial, mesmo quando se dispõe de recursos de toda ordem. Para quem não está no lugar de quem sofre, fica fácil falar. Mas, já que estou (neste momento) do lado de fora, posso tentar compreender melhor o sofrimento. A vida já é plena, mas provavelmente quem está sofrendo deve ter vivenciado a confusão entre ter e ser. Ter capacidade, ter bens, ter família, ter saúde, fazer coisas, isso tudo é consequência. O real é o viver. Do mesmo modo, sofre quem está, o tempo todo, ou em busca de alegrias ou fugindo das tristezas, sem perceber que as emoções são passageiras. Vive-se melhor ao perceber, compreender, aceitar os sentimentos negativos ou positivos e seguir adiante.

Por isso, em Yoga, pratica-se a auto-observação, de modo que se possa ver a si mesmo, enquanto se está fazendo algo. Dessa forma, o viver passa a ser um estado permanente de testemunho e decisão, no qual estou o tempo todo observando a vida e a mim mesmo; vivendo conforme as minhas decisões diante do que "vejo". Porém, com o propósito, acentuado pelo Patânjali, de aproximar-me, cada vez mais, do eu interior de modo que eu possa ver a vida como ela é para "ele" (o "eu" interior, o "Ishvara"). Assim, as coisas perderiam a importância exagerada que lhe atribuo. O importante mesmo está lá dentro do que percebo e observo, com a consciência de que tudo é passageiro, mutável.

Só o que não passa é esse "eu" interior, esse ser especial, "Ishvara", presente em todos. Na essência somos todos iguais: divinos e eternos. Por isso a saudação "namastê" diz: o "eu" que está aqui dentro cumprimenta o "eu" que está aí dentro; a divindade que há em mim saúda a divindade que há em você.

Thadeu Martins

      

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