Emoções sem perder de vista

Agora quero comentar um pouco a questão da perda e do desapego na perspectiva do Yoga. Inicialmente, o que me ocorre é que quando vou a um velório de alguém conhecido, em geral o que faço mesmo é tentar consolar os amigos. Esse exercício de apoiar o outro, de consolar, posso trazer cada vez mais para aqueles próximos a mim, até a situação em que não há outro a apoiar senão a mim mesmo, à minha própria pessoa.

No referencial do Yoga, tenho a grande vantagem de poder me ver também como um outro, pois aceitei haver, em mim e em todos, a dualidade básica essencial, a não manifestada e a que se manifesta: "purusha" e "prákriti"; a não material e a material. Embora não faça sentido uma separação, posso vê-las como "uma" e "outra".

A primeira manifestação de "prákriti" é a mental, o código divino, emocional, inteligente. Eu, você e todo o mundo surge a partir de uma definição codificada, o DNA, que dá a conformação que cada ser tem. Esse código é quase imaterial, está bem perto de 'purusha", mas já é "prákriti" – embora, no fundo, tudo seja uma coisa só.

Nessa sequência do código mental, a primeira manifestação é de natureza intuitiva ("mahat"); sente-se, percebe-se, mesmo sem pensar. As reações intuitivas que se têm são absolutamente emocionais, não passam por nenhum processo de racionalidade. Já a manifestação seguinte é intelectual ("buddhi") e tem por base a racionalidade. A terceira manifestação mental é "ahankara", o ego, das personagens que adoto, que exerço: o "eu" que atua. Esse "eu" é antecedido então por dois condicionantes mentais: um de intuição ou emoção e outro de racionalidade.

Quando observo a mim mesmo, verifico que assumo várias personagens. Passo a ser "outros", mesmo que personagens de mim mesmo. Um dos propósitos da prática de Yoga é observar-me, aproximar-me do "eu" profundo que observa os vários "eus-personagens".

Posso aproveitar esse referencial para usar na situação (que usei no início da conversa) do velório de um amigo ou uma amiga. Todos que estão lá atuam tentando consolar outras pessoas. Há um ritual de apoio, de sustentação aos outros que ali ficaram, sentido a perda de alguém muito próximo. Nessa situação, atua-se também como uma personagem: o "eu" que perdeu alguém. Posso observar essa personagem, que sou eu e outro ao mesmo tempo. Assim fica mais fácil. É claro que esse outro vai-se emocionar. A perda de alguém querido mexe com valores enraizados. É uma dor muito forte, não há quem não se emocione. Não há como lidar com uma emoção muito grande, a não ser emocionando-se.

Mas, ao mesmo tempo em que vivencio essa forte emoção, sou obrigado a tomar várias decisões, a realizar várias ações de natureza prática e que me serão cobradas. Dependendo de quanto conseguir manter-me inteiro, vou fazer essas ações. No mínimo, vou ter que providenciar o ritual de despedida daquela pessoa. Enfim, vou ter que dedicar energia a isso. Então, mesmo quando estou tomado pela emoção de uma grande dor, tenho que divergir dessa emoção concentrada para dedicar atenção às outras personagens que me são exigidas.

Sou várias personagens, que estão sempre lidando com aspectos diferentes da realidade, sob diferentes pontos de vista. Também sou o observador privilegiado, que está dentro de mim, que antecede a racionalidade e a emoção ("purusha"), e que é capaz de me ver em cada um desses "eus" que assumo em situações que me exigem envolvimento e dedicação.

Busca-se em Yoga o hábito de observar a si mesmo em ação, a perceber as várias personagens que se assumem no dia a dia. O olhar é de compreensão para si mesmo, não de crítica, para apoiar o "eu" que observa, para deixar a emoção abrir espaço e assim sair-se de uma eventual sintonia negativa.

Este é um aspecto importante: preciso ter cuidado para não deixar o "eu" entregue à própria sorte. A maneira mais fácil de abandonar o "eu", que está numa situação complicada, é ficar totalmente dedicado a ele. Por exemplo, se eu deixar-me levar pela tristeza, acabo por sucumbir, ficar doente. Aí vou precisar da ajuda de alguém para sair dessa sintonia. O ser humano passa o dia inteiro sintonizando em várias situações. Isso acontece o tempo todo. A emoção é distribuída nessas várias possibilidades que se têm. Quando me abandono, deixo a emoção concentrar-se em apenas uma determinada sintonia, e assim não consigo recuperar sozinho o distanciamento necessário para sair daquela sintonia emocional.

Quanto mais eu habituar-me a me distanciar para observar-me, mais esse hábito vai-se afirmar, mesmo nos momentos mais difíceis. Daí a importância da formação desse hábito. Para conseguir tomar a ação de sair de um estado emocional intenso, será mais fácil se eu tiver o hábito de observar-me, pois mesmo num estado alterado de consciência, esse hábito vai-se afirmar.

No meu cotidiano, adquiri esse hábito, porque até nas situações de perdas terríveis (inclusive de mim mesmo) será de grande valia. Medito um pouco todos os dias. Lembro-me do que eu fiz, do meu comportamento, das minhas atitudes. Avalio-me nas situações ocorridas. Habituei-me a rever o meu dia e os meus encontros com outras pessoas. Eu teria agido de modo diferente? Como eu acho que as situações poderiam ter sido melhores, se eu tivesse agido de outra maneira? Meu cachorro, Badá, é que fica ouvindo as minhas encucações, enquanto passeamos à noite. Ele parece o "Purusha", não está nem aí.

Thadeu Martins

      

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