Yogues urbanos

Vou comentar um pouco o filme "Samsara". Aliás, dá para conversar bastante sobre esse belo filme. Vou concentrar-me no aspecto que considero essencial, que é o desafio de viver o próprio tempo, a própria época. Os hinduístas sugerem que se pode desenvolver a sabedoria ao se passar por quatro estágios da vida: o tempo de aprendizagem, o de realização material, o de retiro e o de retribuição com a sabedoria adquirida (se alguém viver integralmente tudo isso, sem pular etapas). Vai-se aprendendo com a própria experiência e, em algumas vezes, também aprende-se, antes de errar, por observar e aprender com os erros dos outros.

Eu, você e todo o mundo é um deus anônimo, todos temos esta realidade extraordinária que é a vida em si e a oportunidade (quem quiser) de viver com essa intensidade "entusiasmada". No entanto, por mais "iluminado" que alguém possa ser, continua no mundo social e vivencia isso. A questão é o grau de importância que se dá ao viver social na circunstância em que se está. Esse é o ponto.

Haverá circunstâncias em que darei prioridade máxima à dimensão social, mas haverá muitas outras em que terei oportunidade de olhar a vida social com uma prioridade muito menor. Entre a muita ou nenhuma atenção, estarei sempre presente. Eu sou aquele que estará lá (na situação objetiva), e é isso que pode mudar tudo, quando estou consciente de que sou eu quem dá prioridade, quem dá atenção, e não a minha personagem de plantão ou a que está envolvida na situação.

O desafio do yogue urbano é conciliar o que o Yoga adiciona de compreensão da vida com toda uma cultura que já está impregnada nele (que não cresceu na Índia). Haverá acréscimos e diferenças em algo muito forte, muito enraizado e estabelecido em comportamentos e atitudes habituais.

Não por acaso, acho muito melhor viver Yoga no Ocidente, ser um yogue urbano, do que praticar Yoga no Tibet, ou na Índia do citado "Samsara". O filme acentua que os monges lá não têm muita escolha, já crescem num contexto que elimina inúmeras condições dos desafios de viver. E, volta e meia, as coisas complicam-se mais do que se aprendeu no monastério.

Creio, por um lado, que é muito mais desafiador ser um yogue em uma cidade normal, do que ser yogue, por exemplo, em Rishikeshi (a "capital" do Yoga); por outro lado, as virtudes que se desenvolvem aqui poderão ficar mais consistentes, porque serão mais colocadas em teste.

Claro que aqui no Ocidente, para praticar Yoga, tenho que fazer uma redução cultural muito grande. Há uma mudança de conceitos do que significa a vida. Portanto, vou praticar Yoga com a minha formação: cristã, espírita, umbandista, judaica, protestante, evangélica, e todas mais que fazem parte da minha cultura local. Vou adaptar o hinduísmo à minha compreensão, para fazer o essencial, que é a realização da consciência, estar presente, perceber-me, tornar a vida algo agradável, consciente, bonita e feliz.

Curioso que, para os gregos antigos, a felicidade seria algo impossível, pois estariam sempre desejando algo que não tinham (conforme Platão). Seria a contínua insatisfação, o reino infernal e ideal para o marketing eterno. Eles não sacaram que se pode desejar o que se tem, o que é real, o que está aqui e agora. No filme "Samsara", e em seu contexto, um monge escreve para outro e pergunta: "entre satisfazer mil desejos e dominar apenas um, o que será mais importante?" Ora, jamais satisfarei os infinitos e brotantes desejos. Viver inclui desejar. Não há nenhum problema em ser uma criatura desejante. Essa é uma condição essencial. Mas se eu viver como mero realizador de desejos, operacionalizo a consciência e perco a pré-condição do ser desejante do pleno viver.

O desejar não tem fim. Portanto, desenvolve-se a técnica do domínio de pelo menos um desejo, aquele que será a fonte de segurança, a afirmação da consciência. Vou perceber os meus desejos; entregar-me a alguns; ser arrastado por outros; satisfazer outros ainda e, ao mesmo tempo, estarei praticando o domínio do desejo. É como perceber-se assim: estou desejando, e agora? Entrego-me ou não? Vou ou não vou? Decido! A partir daí entra a prática da vontade. Estarei íntegro, atuando consciente na vida.

O meu tempo de vida oferece as circunstâncias de aprendizado, realização, desapego e aplicação da sabedoria. Já valeria viver só por isso, e seria um desperdício abandonar a consciência nos turbilhões dos desejos ou condená-la na negação deles. Cada circunstância de cada estágio da vida (aprendizagem, experiência, renúncia e sabedoria compartilhada) é determinada, com a perspectiva pela qual participo em minha época e lugar, e vivencio os desejos e seus desafios de satisfação ou domínio. Tudo será passageiro, mas a minha disposição no percurso fará toda a diferença na minha vida.

Thadeu Martins

 

      

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