Universo de possibilidades

O Yoga e outras filosofias, bem como as ciências, oferecem modelos explicativos da realidade. O compartilhamento desses modelos permitiu comunicar e assim evoluir como espécie. Os modelos serão tão bons quanto se quiser que sejam, conforme a capacidade de aplicação que tiverem. A origem remota de quase todos esses modelos é muito semelhante. Eles surgem em uma época muito anterior à escrita, mas na qual as pessoas já conversavam.

Das muitas observações, que foram feitas pelos meus ancestrais, depois do fogo para cozinhar alimentos, a mais importante talvez tenha sido a que permitiu o surgimento da agricultura, há cerca de dez mil anos. Ela foi viabilizada porque se conseguiu determinar com precisão o movimento relativo do sol, por meio da marcação dos equinócios da primavera e do outono, bem como dos solstícios do inverno e do verão. A marcação era feita com pedras gigantescas, para ninguém as tirar do lugar. Ocorreu, assim, a divisão do tempo nas estações de preparar a plantação, plantar, fazer o cultivo e realizar a colheita.

O céu passou a ser um verdadeiro quadro-negro, cheio de informações. Além do sol e da lua, que determinavam os ciclos do tempo, as estrelas também começaram a ser úteis para se determinar as principais direções. Começou-se a fazer conexões de estações, não só com o sol e a lua, mas também com as constelações. Foram-se usando imagens que eram familiares para identificar o céu. Passou-se a denominar grupos de estrelas, como escorpião, touro, leão, e assim por diante. Essas figuras foram sendo associadas aos ciclos do movimento solar.

De tanto observar os fenômenos agrícolas, foram-se nomeando as constelações conforme a sua aparição no ciclo da agricultura. Assim, por exemplo, a colheita foi associada ao signo de Virgem; a semeadura, à previsão do local de plantação, foi relacionada a Capricórnio; o preparo e a manutenção da terra de plantio associou-se a Touro, que puxava o arado; e assim por diante. Não deve ter demorado muito para se associarem as características das atividades humanas nessas estações às pessoas que estivessem ligadas a elas. E assim foram-se criando maneiras de explicar ou tentar compreender a realidade com a qual se lidava.

O que me interessa nessa história é o compartilhamento de experiências, que são objeto de conversas e registros, para que se tenha fácil acesso e recuperação. Além do céu, que todos veem, sempre houve um ambiente no qual as experiências podiam ser compartilhadas, registradas e acessadas, até que elas se tornassem cultura. Quanto mais grupos humanos distantes, mais variedade de formas de explicação, de registro e de modelos. Ao longo da história, os grupos vão-se aproximando e compartilhando possibilidades de comunicação. Isso faz parte do viver cultural.

No entanto, tudo parece diferente, quando um modelo explicativo da realidade mostra as coisas de outra maneira. Passar a perceber o ser humano como uma unidade divina, por exemplo, provoca uma visão de mundo muito diferente daquela que pressupõe uma separação entre um ser divino e um humano. A compreensão dependerá do modelo que se escolher para direcionar a visão da vida.

Entre as muitas possibilidades, o modelo filosófico hinduísta tem como conceito primordial a unidade de um princípio divino de inúmeras possibilidades de manifestação e também de não manifestação. Dessa unidade decorre a dupla disposição de manifestar-se ou não. Surge toda uma cultura que incorpora o divino em cada indivíduo, em que o mundo da não ação e o mundo denso das ações materiais têm a mesma legitimidade; são igualmente verdadeiros; vive-se em ambos os modos o tempo todo.

Tanto em um modelo como em outro, surgem mediadores para propiciar as relações entre o divino e o humano. No de separação, para intermediar as relações. No de unidade, para desenvolver as relações. Os resultados que se observam podem ser muito diferentes.

No modelo "ocidental", no qual fui criado, a atenção está mais voltada para que se possa lidar com a produção material e suas consequências nas relações sociais. Ele estabelece as relações que são exteriores a cada pessoa e que também a afasta da própria convivência interior. Mas a vida não é bem assim, pois o mundo, que se pode vivenciar internamente, tem uma realidade perceptível. Embora, tenha-se que superar o envolvimento social, para deixar brotar o que está dentro de si mesmo (des-envolver-se).

Contudo, independentemente de qual seja o melhor modelo, o importante é que se tenha clareza de que não se está falando da realidade, mas sim de modelos explicativos da realidade. Conforme o modelo que se adotar e praticar, a realidade pode tornar-se muito diferente. O modelo do Yoga, que estou aqui comentando, privilegia a divindade com a mesma intensidade com que privilegia a matéria densa, percebe divindade em tudo. A premissa é a não separação. Se eu, você e todo o mundo estiver ligado no fato de que se é um todo (divino e humano), a vida torna-se muito diferente; talvez melhor do que aquela com uma separação culturalmente habitual.

Thadeu Martins

 

      

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