Yoga em síntese

Yoga, basicamente, é uma das escolas filosóficas hinduístas da tradição dos "Vedas". Essas escolas remontam, na origem, há milhares de anos e propõem a compreensão da vida de um modo que permanece contemporâneo. Elas espalharam-se pela antiga Índia e fora dela; são bastante parecidas entre si e com o Budismo também (este constitui uma escola não ortodoxa, não "vêdica", do Hinduísmo). São mais complementares que antagônicas entre si. Assim como o Budismo, o Yoga (ou a Ioga, como se diz em português), acabou chegando ao Ocidente, mas sem conotação religiosa.

A maneira prática como a tradição hinduísta espalhou-se é muito semelhante à da literatura de cordel. Surgiram e espalharam-se textos cantados e recitados, que iam sendo incorporados às regiões que alcançavam. Um destaque entre esses textos e poemas é o Mahabharata (que inclui o famoso capítulo do Bhagavad Gita, que, no Brasil, ganhou música de Raul Seixas e Paulo Coelho).

O principal texto sobre Yoga é o Yoga Sutra (pequenos textos em cordão), escrito pelo lendário sábio Patânjali (em algum momento entre 500 A.C. e 300 D.C.), que reúne 195 verbetes. Esses cordéis, ou sutras, estabelecem um roteiro filosófico, que é um modo de viver e de orientar a vida. Essa estratégia de vida tem a seguinte síntese: acalme, domine os seus pensamentos, apazigue as variações da sua mente e permaneça presente para agir (ou não agir).

Desse modo, à medida que me faço consciente do que penso, que me mantenho presente, sou testemunha de mim mesmo; enquanto faço algo, deixo de ser apenas a pessoa que faz e passo a ser também a pessoa que não faz, mas observa, e observa principalmente essa pessoa que faz. Trata-se de uma técnica para estar plenamente presente nas próprias ações.

Patânjali inicia o Yoga Sutra definindo Yoga como a cessação dos turbilhões da mente, para ter-se clareza ao agir. Ele propõe algumas bases da compreensão da mente: como a mente funciona, como se pode interagir com ela e como se pode fazer com que ela seja uma aliada e não um fator de perturbação e ansiedade. Patânjali propõe o viver para a felicidade. Na sequência, ele chama a atenção para estar-se no mundo real. Por consequência, tenho de desenvolver a habilidade de lidar com o mundo social e exterior a mim, embora eu tenha um mundo interior muito rico de possibilidades. Tenho, portanto, a compreensão de que vivo para ter a oportunidade da experiência material e da realização da consciência. Uma síntese para mim, então: o sentido da vida é o viver por viver.

Nesta linha de pensamento, embora a vida surja como uma unidade individualizada, eu, você e todo o mundo constitui uma grande unidade. Neste mundo material, tem-se a oportunidade da experiência individualizada, em que se ganham nomes pessoais. Vivencia-se a variedade de experiências individuais, na medida em que se abre mão da grande unidade e passa-se a viver a dualidade: a unidade em confronto com outras percepções da mesma unidade. Assim prossegue o mundo social, que é superinteressante por ser propiciador de tantas experiências.

Embora a filosofia hinduísta parta desse princípio da unidade, ela de imediato chama atenção para a realidade relacional, na qual as aparências se antepõem e estabelecem uma complexidade social extraordinária, a ponto de a unidade parecer perder-se. Daí a necessidade de recuperação do sentido da unidade. É como se o viver fosse um pêndulo, que oscila ora num sentido, ora noutro. Assim vai-se percebendo que se pode, simultaneamente, vivenciar a unidade e a multiplicidade.

No entanto, vão-se conformando assim as questões culturais. Desde pequeno, todo o mundo vai sendo educado, pressionado, estimulado a relacionar-se com os outros. Isso vai ficando cada vez mais acentuado, a ponto de todos especializarem-se no mundo social. Pode acontecer de essa dimensão social tornar-se tão entusiasmante para mim, que eu então não consiga realizar o sentido da unidade em uma única vida. A consciência pode perder-se nos muitos apelos do mundo social. No modo de pensar hinduísta, não há nenhum problema em se perder assim, pois, pode-se morrer e nascer de novo, e então começar tudo outra vez.

Um propósito de viver, portanto, seria também o de se libertar dessas múltiplas experiências recursivas. Todas as escolas filosóficas hinduístas afirmam que essa multiplicidade é uma ilusão. Tudo o que está à minha frente é uma ilusão, uma convenção; eu aprendi a ver a vida do jeito que vejo. Mas, na realidade, eu, você e todo o mundo vive videogames, que são orientados pelo tipo de formação, de referencial, de modelos explicativos que cada um teve oportunidade de adotar.

Ora, à medida que se escolhe um modelo explicativo, tudo o que se vivencia é interpretado conforme esse modelo. No entanto, tudo pode ficar diferente se houver a opção por experimentar outros modelos ou abrir mão dos modelos e entregar-se à realidade, pela apreensão direta. Essas opções exemplificam a diferença filosófica entre Oriente e Ocidente, "logos versus phisis", processo analítico versus processo integrativo da realidade. No segundo caso, tem-se a percepção direta da realidade como unidade, sem modelo explicativo algum. O fato é, porém, que tanto pode-se estar na ilusão desses modelos, quanto na ilusão da percepção direta sem auxílio algum. Portanto, tem-se um desafio que persiste para os filósofos de todas as tradições.

Não por acaso, a palavra que os yogues mais prezam é liberação, "moksha". A liberação relativa à ignorância, de não saber que se experimenta o mundo por meio de modelos explicativos. A maior ignorância seria a de esquecer que originalmente se é uma unidade; que não se tem carência alguma do ponto de vista essencial. As carências que surgem são decorrentes da interação social, que cria uma realidade adicional, que se superpõe à unidade essencial. A orientação destacada na prática de Yoga é a de estimular a realização da liberdade, e perceber a unidade divina que constitui cada um de nós, e agir em conformidade com essa compreensão.

Thadeu Martins

 

      

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