Testemunha de mim mesmo

Acabei de lembrar que os exercícios físicos fazem sentido, em Yoga, se estimularem a praticar algumas atitudes de vida. O exercício é muito bom sob vários aspectos, mas será ainda melhor se, ao fazê-lo, eu concentrar-me na atitude que ele propiciar: tomada de posição, tomada de consciência, desapego e autoconfiança.

Cada atitude está associada a um tipo de movimento. Nas posições, em que me colocar aprumado na vertical, estimularei a atitude de tomada de posição, para perceber tudo o que está à minha volta, a ordem na qual estou inserido (e verificar se não estou sendo alguém estranho no ninho). A tomada de consciência está relacionada às posições que propiciam a meditação, a contemplação; fica-se muito mais focado na não ação, quando não se precisa agir. Percebo que quem de fato vê e percebe é alguém muito anterior em mim. É o ser consciente que me constitui de origem, embora eu possa ter-me dispersado dele cada vez que assumi uma personalidade, uma máscara ou personagem, para atuar num contexto circunstancial qualquer. A atitude de desapego, de entrega, está associada aos exercícios em que me curvo para frente, cuja ênfase está na expiração, ou fico "de cabeça para baixo". Já quando me arqueio para trás, abro o peito, inspiro, cultivo a autoconfiança.

Nas várias posições ("asanas"), concentro-me também na respiração: quando me alongo, na vertical, vou inspirando e volto expirando; quando me curvo para a frente, vou expirando e volto inspirando. O foco na respiração facilita a concentração na atitude correspondente ao exercício.

Quando respiro, eu sincronizo-me com o principal ritmo da vida. O ritmo da energia, da minha atividade, é o ritmo da minha respiração. Daí a importância de respirar bem, profundamente. Ao concentrar-me na respiração, deixo de dar atenção exagerada ao mundo exterior e volto-me para mim mesmo, para o meu processo consciente mais vital (respirar).

Em Yoga e em várias tradições, energia e respiração são absolutamente associadas, há uma congruência entre as duas. Vai-se respirando conforme o ritmo da atividade, e a principal ênfase é em deixar o ar fluir. Não há preocupação em respirar muito, até porque é mais funcional expirar do que inspirar. O ar entra, o difícil é fazê-lo sair. O ideal é caprichar em expirar, encolhendo o abdômen e o espaço interior das costelas; e para inspirar basta liberá-los.

Vai-se percebendo a respiração de acordo com o que se está fazendo, de modo a sentir-se bem. Quanto mais profunda, silenciosa e contínua for a respiração, melhor.

Ao prestar atenção na inspiração e na expiração, consigo ficar em dois lugares ao mesmo tempo: no que estou fazendo e em mim mesmo. Serei testemunha de minha atitude e do que estou fazendo. Essa é a situação ideal, porque estarei em plena consciência; tão consciente que serei capaz de perceber o ritmo da minha respiração. A tranquilidade será muito maior. Haverá plenitude. Passarei a lidar com as situações mais desafiadoras de um modo tranquilo: ao mesmo tempo com proximidade e distanciamento.

Thadeu Martins

 

      

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