Viagem ao centro de mim

Os estilos de meditação em Yoga são basicamente dois: "samprajanata samadhi", aquele em que a identificação está presente, em que procuro compreender algo com o que me identifico; e o "asamprajanata samadhi", aquele em que não há identificação com nada.

No primeiro tipo, estabeleço uma identificação de tal ordem que chego a criar um vínculo com o objeto. No segundo, não há um foco, não há substância, não há nem um objeto totalmente abstrato.

As pessoas que sentem necessidade de meditar sobre algo concreto podem criar alguns mecanismos, como fazer registros, anotar ou mesmo modelar o objeto. São artifícios cognitivos de identificação. Assim poderá ser mais fácil compreender a identificação com o objeto da atenção.

Pode-se, então, deixar os pensamentos fluírem; não quaisquer pensamentos, mas sim aqueles que se relacionam com o objeto escolhido. Um pensamento vai puxando o outro, com o foco em uma determinada situação, evitando-se a dispersão.

Posso meditar de forma despretensiosa, como um exercício para sair um pouco das pressões sociais; ou de forma densa, meditando sobre a compreensão da vida, do modo de ser, dos padrões individuais e sobre as relações sociais.

Também é possível meditar sem concretude. Os objetos, nesse caso, podem ser imagens, conceitos ou emoções – qualquer uma que se queira: injustiça, indignação, alegria, êxtase ou variações entre esses polos.

Pode-se criar uma materialização para ajudar, com desenhos ou miniesculturas, aquelas com massinhas ou miolo de pão, por exemplo, para perceber melhor os sentimentos recorrentes e fazer referências a eles. Quando esses sentimentos aparecem? Com quem eles brotam? Com que propósito? Como lidar com eles? Se há um padrão, fica mais fácil identificar-se, porque é o padrão de cada um. Nesses modos, o meditador poderá utilizar recursos de anotação, para facilitar o seu exercício. Afinal, nem só sentado ou deitado se medita.

Até agora falei do primeiro movimento, que é a identificação. Escolho, decido, crio os meus artifícios, do mais concreto até o mais sutil. Eu me transformo no objeto focalizado, reconheço dentro de mim aquilo que represento, o sentimento do ser.

Depois vem o outro movimento, o contraponto, a essência da meditação, aquilo que faz acontecer o "samadhi", a partir do desapego da identificação. Esta plena meditação, que ultrapassa a concentração e a contemplação, e que é de total não ação. O objeto e o observador se fundem. Primeiro identifico-me com o objeto, que é usado como apoio, e depois me abstraio completamente dele.

Quando há o apoio de um objeto concreto ou sutil, é o caso do "samprajanata samadhi"; se a meditação é de não ação completa, nem identificação há, trata-se do "asamprajanata samadhi".

No primeiro, o pensamento está presente, focalizo a atenção, verifico minha identificação com o foco da minha atenção, para em seguida abrir mão da identificação e permitir-me ficar num estado contemplativo, de não ação, de liberdade em relação àquela identificação percebida. A sensação de liberdade se expande em mim, mesmo que a sua origem tenha sido um objeto determinado.

No segundo, em geral mais raro, mais "avançado", o estado de não ação é obtido, alcançado, acontece, sem o artifício direcionador do pensamento dirigido a um alvo. Os místicos, os de muita fé, os simples e os sábios o realizam pela cessação da atividade mental, intelectual, cognitiva. Eles se colocam, cada um ao seu estilo, em um estado de consciência plena, e distantes de toda apelação existencial, provavelmente experimentam uma extraordinária e indescritível liberdade. Talvez percebam o silêncio primordial.

Thadeu Martins

 

      

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