Plenitude na meditação

Meditar é concentrar-se em algo até sair do estado de concentração para entrar no estado de contemplação. Mantenho-me fixado em algo e daí a pouco, naturalmente, "esqueço-me" de que estou fixado naquilo e prossigo contemplando. No estado de contemplação, permaneço atento, mas não mais "tenso", concentrado. O próximo passo, então, é distanciar-me da identificação que surgiu entre mim e o objeto da concentração anterior. Como isso acontece, ninguém sabe ao certo.

A experiência, que vem a seguir da contemplação, o "samadhi", é individual. Cada um vai experimentar de uma forma diferente. Na minha experiência e em todos os relatos, apenas vejo que, de repente, se vai. Alguns passam longo tempo meditando, contemplando, sem que nada ocorra. Até que um dia, de repente, acontece. Com a prática, sentado ou deitado, vai ficando cada vez mais fácil. De início, pode ser melhor meditar deitado, para não sentir desconforto físico.

Depois de relaxar, concentrar, deixar os pensamentos, imagens e sensações passarem, chega-se a um estado no qual se fica aberto a experiências extrassensoriais, fora da dimensão espaço-tempo. Mas o sábio Patânjali chama atenção, no Yoga Sutra, para não se encantar, nem tentar operacionalizar essa experiência, que parece meio mágica. O que ele sugere é que cada um de nós se entregue, consolide as suas experiências, para perceber qual é o seu propósito, o seu caminho; que cada um entregue-se às suas experiências meditativas com habitualidade, deixando brotar respostas para as silenciosas perguntas que estão dentro de cada um, as quais as palavras não ajudam a dizer.

Então, começa-se a ver o mundo de forma bem diferente. Começará a fazer sentido o que dizem os hinduístas: que a vida é muito mais do que se apresenta; que se vivem relações convencionais; que não é preciso sofrer nem se empolgar tanto. Com essa compreensão, a vida passa a ser muito mais tranquila. Os aborrecimentos passam a ser vistos como algo insignificante, perto do que a vida é. Passa-se a lidar melhor com o cotidiano, e vai-se ficando cada vez mais disponível para ver a essência das coisas, dos relacionamentos, da realidade.

Um modo de começar a praticar poderia ser o que os yogues chamam de "yoga nidrá", a prática do sono dos yogues, quando, na hora de dormir, se faz um relaxamento profundo e se tem experiências oníricas, conscientes. Durante o relaxamento, fica-se mentalizando o desejo de ficar consciente durante o sono que virá. Desse modo, quando permanecer presente nos sonhos, fica-se observando a si próprio "em ação", e já se estará praticando uma forma bem efetiva de meditação.

Esse hábito vai-se consolidando, e vai-se incorporando à vida, do mundo material, a dimensão onírica, que é tão ou mais interessante que o videogame ao qual se está acostumado. Será a continuidade que vai possibilitar o aperfeiçoamento. À medida que for praticando e compreendendo as próprias experiências, vai-se estar cultivando um estado mais amplo de consciência, aprendendo a lidar mais tranquilamente com o cotidiano e experimentando um viver cada vez mais próximo da plenitude.

Thadeu Martins

 

      

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