Sintonizar em "samadhi" e curtir até insônia

Tomam-se decisões emocionalmente, e grande parte da prática yogue, portanto, está focalizada nas emoções, para criar pré-condições de vivenciá-las ao mesmo tempo em que se forma o hábito de distanciar-se delas. A intenção é de não ficar o tempo sintonizado numa só "frequência emocional", como ao repetir-se continuamente um mantra.

Na época em que o sábio Patânjali escreveu o Yoga Sutra, e antes mesmo dele, com os recursos de compreensão da mente, que se tinha até então, já se falava que toda ação implica um resultado que cada um percebe. Ao perceber o resultado, reage-se, e também atribui-se ao resultado um significado, que por sua vez também está associado a uma emoção. Eu, você e todo o mundo segue agindo, provocando, percebendo e memorizando os resultados (qualificados por significados e emoções). Esse ciclo vai-se repetindo numa frequência que prossegue ao longo de cada vida.

Patânjali afirma que algumas dessas lembranças afloram em forma de pensamentos ou como algo, que nem pensamento é (as reminiscências), e que essas manifestações provocam ações. Então, vai-se criando um verdadeiro filme na mente, em que uma lembrança vai puxando outra e mais outra. Daí a pouco, estão-se resolvendo problemas que ainda nem aconteceram, mas que se criaram nesse filme, que se projeta. Isso acontece o dia todo, todos os dias. Nas mais diversas situações, sou tomado por essas reminiscências e embarco nelas. Há pessoas que sofrem muito com isso, pois as lembranças as mobilizam de uma forma negativa, até chegar a formas extremas.

Num momento de crise, a tendência de defesa é voltar para um terreno seguro. Vai-se até certo ponto, até sentir-se ameaçado, então, recua-se para as lembranças de segurança. No cotidiano, eu, você e todo o mundo vive fazendo isso. Cada vez que aparece uma grande novidade, reage-se. A gente é assim, traz em si esse comportamento, que vem desde a era das cavernas, ou antes. O comportamento defensivo é algo natural. Mas o que pode tornar-se desgastante no cotidiano é deixar-se perder por esses fluxos de reminiscências, de pensamentos e ficar-se remoendo. Este é o perigo: desperdiçar a vida e deixar-se ficar doente.

A dica de Patânjali é a seguinte: sempre que um desses pensamentos quiser pegar, pode-se até curti-lo um pouco, para não ficar negando o sofrimento, mas, antes que ele se torne uma complicação exagerada, o melhor a fazer é mudar de estação. Imediatamente, lembrar de algo positivo, entrar numa sintonia mais leve, agradável (pegar uma revista de fotografias bonitas, de piadas, cantar uma canção amorosa, falar da vida dos outros, se for coisa boa, é claro). Assim, será possível sair da sintonia ruim, para poder compreender o problema com distanciamento: seria algo para se tratar com alguma ação ou seria apenas uma dispersão? Se for algo que já foi superado, o melhor é sair da sintonia e seguir em frente.

Patânjali enfatiza que um dos caminhos para se meditar, para se entrar no estado mental que os indianos chamam de "samadhi", que é um estado de não identificação, seria cultivar lembranças agradáveis, pensamentos positivos, ficar em paz. Então, antes de dormir, em vez de assistir ao noticiário, cultivo o bom astral e crio um clima agradável. Entrego-me, relaxo, ouço uma música suave, fecho os olhos e apenas aproveito. Se barulhos aparecerem, incorporo-os aos outros sons ambientes, sinto a que distância eles estão de mim, sem me preocupar em julgá-los. Eu assim já estarei num estado próximo ao "samadhi", principalmente se eu permanecer consciente.

Os yogues proclamam que melhor do que dormir profundamente é dormir profundamente de modo consciente. Eis um grande desafio, saber que se está sonhando e monitorar os próprios sonhos, como se estivesse dentro de um cinema. Para conseguir esse estado, digo antes de deitar-me, ou enquanto vou relaxando os músculos do meu corpo, respirando numa cadência tranquila: "vou ficar consciente durante os meus sonhos". E prossigo praticando por todas as noites. Embora estranha, essa não deixa de ser uma boa forma de fazer Yoga.

Um segredo é usar a capacidade imaginativa para criar situações positivas. Lembro que qualquer emoção é reforçada, de modo físico, pelo cérebro. O hipotálamo cria neuropeptídeos, que são energia em forma eletroquímica e que são disparados para todo o organismo, para reforçar a emoção na qual se estiver envolvido. Todas as células do corpo são atingidas por esses neuropeptídeos. Assim, de modo inconsciente, reforçam-se as emoções, como faziam os meus ancestrais, antes de serem racionais, há milhares de anos. Mas, com a evolução humana (lembra do homo sapiens?), formou-se um cérebro intelectual, que se acrescentou ao antigo cérebro réptil – onde o hipotálamo reforça as emoções. Isso permite sair das armadilhas inconscientes. Para tanto, valem todos os artifícios, principalmente o bom humor, que é um poderoso antídoto para curar os problemas de humor no cotidiano.

Pode-se mudar a programação do hipotálamo, trocar de sintonia. Um problema como a insônia passa a ser uma oportunidade de ficar consciente e relaxar os músculos, para observar o fluir dos pensamentos, ou das imagens positivas que se podem inventar ou recuperar. Daí vira uma curtição para prosseguir, num estado de absoluta paz, até o dia amanhecer (se ninguém vier a dormir).

Thadeu Martins

 

      

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