Livre para ser

Uma das palavras mais importantes em Yoga, é "moksha", que significa literalmente libertação, mas num sentido bastante amplo. Talvez o principal foco dessa liberdade seja o de perceber o quanto se pode desapegar de amarras, convenções, complicações; que não são tão importantes assim, mas que se transformam numa rede que prende a mim, a você e a todo o mundo, numa trama social exagerada e que impede o simplesmente ser.

A primeira percepção dessa liberdade é diferenciar aquilo que é mutável daquilo que é permanente na minha vida. As circunstâncias em que vivo, mesmo alguns valores, vão mudando ao longo da existência, enquanto mantenho a mesma identidade e compreensão de mim mesmo como uma mesma pessoa. Além das convenções sociais, também percebo que a minha compreensão da vida é dada por uma certa construção mental, que faço e que está associada também à minha formação. Esse modelo mental muda o significado da realidade, condiciona a minha apreensão da realidade.

Tudo o que percebo como realidade é mutável. Então, não haveria por que me apegar com tanta intensidade, se tudo é passageiro. Perceber essas minhas amarras talvez seja o principal foco do conceito de "moksha". É a libertação, liberação deste mundo ilusório, ao qual, na maior parte das vezes, estou demasiadamente apegado, mas que é apenas uma forma de percepção, mesmo que compartilhada por muitas pessoas.

Essa compreensão de liberdade, na prática de Yoga, é bastante radical, porque se contrapõe à origem das noções, muito arraigadas em mim, você e todo o mundo, do que é real, concreto, permanente. Mas, se por um lado, a filosofia Yoga faz essa contestação radical, por outro, ela oferece uma compreensão prática de como lidar com a realidade percebida. Ela propõe que cada um adote limites e assim os perceba. Esses limites, obviamente, restringirão os meus movimentos; mas liberdade, em Yoga, não significa falta de comprometimento em relação a tudo.

Os limites que são sugeridos, pela compreensão do Yoga, têm o objetivo de ajudar a lidar com a ilusão social. Na verdade, são bem menos limites e bem mais orientadores para lidar com o mundo fantasioso, de tal modo que eu não seja atrapalhado pelas armadilhas de comportamentos socialmente negativos, e possa ter condições mais favoráveis de cultivar a minha liberdade e bem-estar.

Patânjali, o guru histórico das escolas de Yoga, enfatiza um código básico de comportamento, conjuntos de restrições e de estímulos: as cinco restrições e os cinco estímulos de direcionamento da liberdade. O sentido não é de proibição, mas de atenção e controle. Em Yoga, a sugestão é agir consciente dos movimentos, das potencialidades, da liberdade, para que eu possa controlar punções, impulsos, movimentos para os quais, socialmente, sou empurrado e aos quais vale a pena dar atenção para não ofender os outros e a mim mesmo.

Lembro que as restrições básicas em Yoga são as seguintes: controle e atenção à ofensa, à mentira, ao roubo, à dispersão do "ser", e ao respeito às condições objetivas ou materiais dos outros (cobiça ou inveja). Essas restrições têm por propósito o cultivo da liberdade. Importante frisar que não se trata de "pecados", crimes ou punições. Trata-se de temas sociais que afetam a todos os humanos.

Se, por um lado, há um foco no controle, por outro, há os estímulos, que, no ambiente social, aparecem de forma meio velada; percebem-se pelos exemplos de pessoas próximas (pais, tios, professores, amigos), mas nem sempre são estimulados explicitamente. Tais estímulos também são cinco: pureza, contentamento, esforço (perseverança), estudo (hermenêutico e auto estudo) e aceitação do princípio divino da vida. Esses cinco estímulos levam a um comportamento positivo.

Como os sistemas sociais de controle são muito presentes, são mais facilmente incorporados; acho que é mais efetivo cultivar os cinco estímulos. Uma pessoa que segue esses estímulos, que vive desse modo positivo, provavelmente vai se envolver muito pouco em situações que lhe exijam o exercício de controles. Não estou falando de um comportamento ingênuo, bobinho, de não ver o que existe de esquisito na vida, no mundo. Ao contrário, todo mundo é capaz de cultivar a alegria, embora perceba a tristeza, e é capaz de estudar, embora perceba a ignorância, e assim por diante.

Esses "dez mandamentos" são lembranças, pontos de atenção que formam uma base simples, mas muito densa, para a prática da liberdade ("moksha"), que em Yoga se cultiva. Observo que "moksha" significa libertação – e não "salvação". Em Yoga, não faz sentido "salvar" alguém, não se trata de um resgate. Trata-se de um modo preventivo de viver bem, e não de livrar alguém de culpas ou pecados já cometidos (em relação a algum código). Em Yoga, como na natureza, não há pecado nem perdão. "Moksha" é o comportamento de escolha de atitudes e consequências que evitam o aprisionamento cultural, mesmo que a pretexto de ser incluído e de poder continuar vivendo em sociedade.

Thadeu Martins

 

      

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