Mestre de mim mesmo

O Yoga Sutra de Patânjali, em seus 195 verbetes, faz uma verdadeira síntese de algo que já vinha sendo construído antes dele. A cultura hinduísta surge praticamente junto com a descoberta da agricultura, há uns dez mil anos a.C. Os registros dessa cultura vieram sendo transmitidos oralmente, em formato poético, como também foram os ensinamentos de Yoga e vários outros, pois assim eram mais facilmente decorados e passados para as pessoas. Seu idioma, o sânscrito, é visto como origem de muitos dos idiomas conhecidos.

As escolas hinduístas do pensamento são surpreendentes. Produziram uma concepção ampla do que é a vida e o universo, integrados ao cotidiano, à produção social: agricultura, comércio, relações políticas, etc. Todo esse conhecimento foi transmitido em versos, até tornarem-se textos de formatos atuais. O maior poema escrito, em todos os tempos, é o Mahabharata (a grande Índia), com uns cem mil versos! Nele há um capítulo chamado "O canto do ser divino", o Bhagavad Gita, uma história muito ilustrativa dos conflitos do ser humano diante da vida. Ele chama a atenção para estar-se presente e assumir a própria vida. Todos os seus capítulos iniciam com a palavra "yoga" (com a acepção de comportamento).

O sábio Patânjali surge numa data indeterminada (entre os séc. V a.C. e V d.C.) e é o responsável por sintetizar todo o conhecimento do Yoga e colocá-lo de uma maneira didática no Yoga Sutra (cordão do Yoga), que inclui um código de comportamento. Fundamentalmente, ele fala de atitudes que se reforçam em cada pessoa para conduzir a vida de um modo que seja bom para todo o mundo. Também dá as dicas para lidar com aqueles momentos em que se fazem perguntas essenciais, do tipo: "o que estou fazendo aqui?" ou "para que eu nasci?".

Patânjali reforça que cada um tem todo o instrumental, todas as condições, para perceber as respostas aos próprios questionamentos mais profundos. Claro que se pode conversar e pedir ajuda a amigos e especialistas. Afinal, interage-se o tempo todo. E é bom que seja assim, pois, na maior parte das vezes, é por meio do outro que cada um passa a se conhecer. A presença do outro é fundamental. Mas se tem, dentro de si, todas as respostas de que se precisa. Elas surgirão na medida em que sejam buscadas.

Para encontrá-las, vale tudo: conversar, meditar, ler, etc. Patânjali sugere a prática da humildade, do bom humor e do esforço orientado. A humildade é essencial para perceber que todo mundo pode ser um grande mestre para quem prestar atenção. Todas as pessoas têm muito a ensinar, a explicar e a dizer, desde que se tenha a disposição de percebê-las como mestres. Se eu estiver disposto a aprender e perseverar nisso, farei com que a minha vida seja uma contínua oportunidade de desenvolvimento.

Os muito sábios dizem que a maior fonte de prazer do ser humano é a curiosidade. A descoberta de algo, no mínimo de uma nova possibilidade, é o que mais encanta. Então, quando me entrego e me aprofundo no estudo, na descoberta, já estou cultivando essa característica tão preciosa da felicidade humana, que é a satisfação da curiosidade. Como o brotar de desejos é infindável, posso criar uma espécie de "moto contínuo" de autêntica felicidade. O melhor é que nem preciso comprar isso em algum lugar, pois já está disponível em mim mesmo. Custa só um pouco mais do que sorrir à toa e prestar atenção.

Thadeu Martins

 

      

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