Memória e estresse

No cotidiano, vou disfarçando o estresse, porque fui educado socialmente para isso. Mas o estresse continua, numa camada muito profunda. Eu, você e todo o mundo traz o acúmulo de estresse desde a infância e mesmo de períodos anteriores, da era das cavernas. Quando se fica acordado à noite, resolvendo os problemas do mundo, também se estão reavivando memórias muito antigas, cuja mensagem para o corpo é de ameaça. Diante das ameaças, o organismo estressa-se, é levado a limites para os quais teria que tomar uma atitude e agir.

Se eu ficar acordado à noite, assistindo pela TV às desgraças do dia, meu corpo será levado a reagir. Mas eu não sairei para combater os incêndios do mundo. Em vez disso, irei para a minha cama, depois de submeter-me a todas as mensagens de ação. O resultado é que não conseguirei dormir bem, pois a mensagem recém-acumulada, às que vêm há milhares de anos de existência, é que eu tenho que agir diante das situações de ameaça (ou pelo menos ficar preocupado).

Ao longo do dia, posso passar por várias situações desse tipo. Quando me percebo ameaçado, o meu organismo cobra de mim um preço alto, que são os acúmulos internos de tensão, com os quais de algum modo vou ter que lidar. A dica é trabalhar a emoção, perceber e reconhecer que situações são essas, que chamam a minha atenção de forma tão exigente, tão estressante, para que eu passe a resolvê-las ou a evitá-las no cotidiano. Aumento assim a minha capacidade de lidar com as situações ameaçadoras.

O sábio Patânjali afirma que a memória tem um processo muito prático de se constituir. Toda ação ou reação provoca um resultado. Este é percebido, compreendido e traduzido num significado, com uma emoção associada, que fica registrada na memória e vira registro físico. Enquanto isso, no cotidiano, acontecem as manifestações involuntárias das memórias, as reminiscências, que vão sendo alimentadas pelas novas memórias. Os hinduístas dão às reminiscências o nome de "sanskaras". Vêm então os pensamentos e tomam-se decisões, em função de uma memória que ressurgiu. A ação provoca um resultado e novamente vivencia-se o resultado, com significado e emoção, e registra-se uma nova memória. Esse processo, portanto, não tem fim, é permanente.

O processo de formação de memória se dá nestas quatro etapas: ação, resultado, percepção do resultado e memória. E assim prossegue o tempo todo. Então, eu, você e todo o mundo tem esses impulsos, memórias recorrentes: estímulos que brotam sem saber-se bem por quê. De repente, começam a vir lembranças de algo, e sou envolvido por essas lembranças, positivas ou negativas e, daí a pouco, posso ficar ou eufórico ou raivoso (ou em quaisquer outros estados intermediários), sem nem saber bem por quê. A origem foi alguma coisa ou fato que nem existe mais, cujo registro pode ser da memória de alguns anos passados; ou até uma memória ancestral, que nem me pertence verdadeiramente, mas que surge porque está no repositório inicial, no banco de dados que se herda dos ancestrais.

Ao praticar Yoga, uma das intenções é perceber tudo como é de fato. Evitar julgar ou analisar os pensamentos, imagens ou sensações que não se apliquem ao presente e que, portanto, deveriam passar. Assim vou-me habituando a não dar muita atenção às reminiscências que a memória fica enviando. Habituo-me a desprezar essas manifestações mentais, que não têm uma conexão direta com a realidade presente, que são ou projeção de futuro ou apego ao passado. Há, portanto, um desafio recorrente de lidar com a realidade, estando aqui, no presente, em vez de estar perdido nas armadilhas das memórias mal resolvidas.

A memória talvez seja a mais difícil de lidar, dentre as manifestações da mente, que se devem controlar. Ela talvez seja a fonte mais abundante das cinco causas principais para o sofrimento mental: a ignorância, o egotismo exagerado, a aversão ao que não se gosta, o apego ao prazer e o medo da morte. Esses fatores, os ressaltados por Patânjali no Yoga Sutra, podem ser reduzidos, se eu ficar mais atento com a formação e o tratamento das minhas memórias de vida, que criam o estresse, por exemplo: programar a televisão para gravar o noticiário noturno, e dormir mais cedo e em paz.

Thadeu Martins

 

      

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