O som primordial

Na tradição hinduísta, "OM" significa literalmente o nome de Deus. Mas há uma enorme diferença na concepção do que é divino ou humano entre o hinduísmo e as tradições ocidentais. Nestas, há uma separação entre a divindade e o ser humano. No hinduísmo, não há essa separação.

Na compreensão hinduísta, tudo o que existe é divino, a existência é um atributo da divindade e vice-versa. Isso faz grandes diferenças no modo de perceber a vida. Não há, por exemplo, pecado original; se existir algum paraíso, a terra prometida, o jardim do éden, ele está dentro de mim, de você e de todo o mundo.

Para representar o som primordial, a divindade que há em mim, você e todo o mundo, os hinduístas conceberam o "OM". O todo que é e determina tudo, que é a divindade, representa-se com um som que abrange todo o espectro sonoro. Um som que condensaria todos os sons, desde o emitido com a boca mais aberta, "A", àquele com a boca fechada, "M". A modulação do som aberto para o fechado é feita com a letra "U". A emissão desses sons ao mesmo tempo, resulta "AUM", que soa como "OM", em que o som vai-se nasalando, ao sair apenas pelo nariz.

A origem dessa elaboração se dá na Índia milenar, na região (hoje no Paquistão) do extinto rio Sarasvati, quando se estabelecem os primeiros registros de textos mais famosos, considerados sagrados no hinduísmo, os "Vedas", a expressão dos deuses.

Assim, o OM está associado a uma linguagem, a um sistema de valores, de compreensão do mundo, da vida e de tudo. Nessa compreensão, há um princípio divino e dual ("purusha" e "prakriti"), que tudo determina e está presente em tudo. Não há separação entre manifestação e não manifestação. Tudo tem natureza divina, que não é personificada – embora a natureza humana personifique tudo, inclusive na Índia.

Basicamente, OM é a invocação da divindade na forma de um mantra; um som repetido de modo regular para criar uma sintonia, uma harmonização. É um mantra primordial, o primeiro de todos, e com ele busca-se a harmonização do "eu" com o "eu" essencial. O propósito é a harmonização, eu estar em mim. Quanto mais eu tornar-me autêntico, mais vivo a minha vida com autenticidade, muito mais terei a dar, mais original será a minha contribuição ao viver.

Então, o OM pode-se utilizar como um exercício para a aproximação de cada um consigo mesmo, de prestar-se atenção em si: no corpo, nos sentimentos e até no que é anterior aos sentimentos. Enquanto o OM estiver vibrando dentro de mim, no íntimo, estarei com a atenção na divindade, esse algo tão sutil que nem precisa materializar-se para ser percebido.

A compreensão, do fato de uma forma sutil de energia ser percebida, ganhou bastante complexidade. Por exemplo, a tradição ocidental, desde os gregos, refere-se a um sistema nervoso, por onde a energia é comunicada no corpo físico. No exemplo hinduísta e mais tarde no taoísta, percebeu-se que há vários caminhos sutis, dentro do corpo, pelos quais a energia flui e se manifesta. Tais caminhos são chamados de "nadis" pelos indianos; enquanto os chineses, por sua vez, os chamam de meridianos de circulação de energia (os mais citados são os quatorze caminhos da acupuntura). Esses precursores perceberam também que, dentro do corpo, existem locais (pontos e regiões) onde essas energias se concentram para depois se espalharem. Na tradição indiana, esses "anéis rodoviários" são os famosos "chacras" (rodas ou círculos).

Perceberam-se pelo menos sete "chacras". O primeiro distribui energia para o sistema estrutural (ósseo, muscular, orgânico)) e fica na base da coluna (região do períneo); o segundo está associado à capacidade de concepção, das funções sexuais (fica na região pélvica), o terceiro é relativo às funções digestivas (na altura do umbigo). Esses três "chacras" estão associados a uma manifestação mais substantiva, mais densa, da energia, ou à matéria propriamente dita. O quarto "chacra" é de transformação do material no sutil, é o "chacra" do coração, que é considerado a sede da emoção com significado. O quinto está associado à garganta, à expressão desse sentimento com significado. O sexto "chacra" fica localizado na região do cérebro (altura das sobrancelhas), sede dos significados e dos suprassignificados (aqueles culturais). Já o sétimo "chacra" estaria além do corpo, logo acima da cabeça, na transição do mental para o mais sutil, o espiritual. Este é chamado de "chacra" das mil pétalas. Está associado à captação dos insights.

A ideia de emitir o mantra OM por sete vezes, um OM para cada um desses sete "chacras", teria o propósito de manter íntegro o ser individual, numa sintonia plena, numa totalidade, para harmonizar-se e assim preparar-se para a atuação na vida social. Vibra-se com o som primordial, OM, para provocar uma dança interna e deixar os bilhões de células em harmonia divina. A intenção é perceber a realidade de um modo mais apropriado ao mistério da vida, sentir que tudo pode ser simplesmente extraordinário e transitório, como deve mesmo ser.

Thadeu Martins

 

      

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