Simplesmente Yoga

O Hatha Yoga surge ali pelo século XIV, por um texto que lhe tem por título (Hatha Yoga Pradipika) e um presumido autor, Svatmarana. Nele se propõe um caminho de desenvolvimento espiritual e prática integradora de posturas, controles de energia e respiração, que seriam propiciadores da realização espiritual pelo esforço disciplinado. Ele tem raízes tântricas, quer dizer que vem de tradições familiares e não védicas. Veio a tornar-se bem popular, talvez pela ênfase corpórea, menos reflexiva, menos cognitiva, mais acessível, em geral.

Talvez com exceção das linhas de Yoga devocional (que incluem os Hare Krishna, a Sida Yoga), quase todas as "escolas" de Yoga, atuais, ensinam alguma forma simplificada de Hatha Yoga (porque as práticas originais são tão exigentes, que raríssimos conseguiriam realizá-las). Essas escolas vão acrescentando algumas características próprias, seja pela tradição que as originou, seja pela inserção cultural ou mercadológica pelas quais se instalam, ou por outras possibilidades de diferenciação mais eventuais. Mas a ênfase é, de modo geral, o esforço físico, disciplinado, com intenção de alcance de condições superiores de saúde física (e eventualmente em termos espirituais, com a amplitude que essa palavra pode contemplar).

O Yoga clássico ou tradicional seria mais originalmente referido apenas como Yoga. Surge, como já comentei, na época do chamado período axial da humanidade, conforme a expressão do historiador inglês Toynbee para referir-se à simultaneidade de Buda, Zaratustra, Lao Tsé, Deutero-Isaías. O texto que lhe marca a origem é o Yoga Sutra, do legendário Patânjali, que o escreve em aforismos, 195 deles, e expressa o que era tido como "o conhecimento de Yoga", à sua época. Portanto, mesmo sem ser originário, marca um início que resume a tradição e assim pode ser denominado "clássico".

Não traz nenhuma ênfase física, trata da compreensão da mente e suas manifestações, do lidar com ela para viver plenamente, do lidar com o mundo social para libertar-se dele, nele vivendo. Trata da alma, "aquela que se liberta da cidade", como poderia dizer Platão, outro potencial contemporâneo de Patânjali. Indica para "exercício", um código de comportamentos e atitudes, posturas, controles de energia (por via da respiração) que acentuam a atenção e consciência, introspecção, concentração, contemplação e transcendência das dualidades.

A transmissão do Yoga, na forma clássica, veio a incluir textos de comentaristas tão legendários como o seu autor, e que acrescentaram interpretações facilitadoras e ampliadoras para a compreensão do texto original. Eles foram fazendo uma síntese das seis principais escolas ortodoxas hinduístas (Yoga sendo uma delas), de modo a referenciar cada aforismo de Patânjali ao conhecimento tradicional, védico e viabilizar sua aceitação, prática e inserção cultural.

Fez parte dessa inserção a inclusão de "exercícios físicos", cujo surgimento foi cronológico e em parte se confunde com a prática simplificada dos exercícios de Hatha Yoga, porém, com ênfase na estabilidade, no conforto para meditar, na aceitação gradual dos próprios limites dos praticantes, de modo que os exercícios propiciem: desenvolvimento de atitudes, plena atenção, consciência no viver no mundo com os outros.

Há quem prefira, na mesma Índia, denominar isso tudo como Raja Yoga ("raja" ou "radja" querendo dizer real, transformador, superior, verdadeiro). As iniciais denominações: Raja Yoga, Bakti Yoga, Karma Yoga, Jñaña Yoga (a real, a devocional, a da ação, a do conhecimento). Essas vêm ganhando inúmeras denominações, mas talvez já se esteja passando da saturação nominativa. Melhor talvez seria dizer como o Marcos Shultz (de Florianópolis): "simplesmente Yoga".

Devo dizer que a tradição, à qual tive acesso inicialmente, no Yoga Institute, do saudosamente respeitado em toda a Índia Shri Yogendra, de Mumbay, enfatizava o estudo e a prática do Raja Yoga, bem como a aplicação simplificada do Hatha Yoga. O que bem caracteriza a atualidade do Yoga clássico. A fundação do The Yoga Institute em 1918, marca o que se chamou, na Índia, de o renascimento do Yoga, em completa inserção com o movimento de recuperação cultural, que veio a resultar na independência nacional e no reconhecimento internacional.

Para mim, foi uma grande sorte ter conhecido pessoalmente o sábio Yogendra e o filho caçula do velho mestre e prosseguidor de seu trabalho fundador, o PhD. Jayadeva Yogendra, que me orientaram nos fundamentos de Yoga.

Thadeu Martins

 

      

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