Meditação e nossos cinco corpos

Os modelos explicativos da realidade, como o Yoga, trazem paz e segurança, na medida em que oferecem um certo ordenamento, no qual eu, você e todo o mundo consegue localizar-se. A carência de organização é uma característica humana há muito tempo, talvez de origem. Modelos explicativos da realidade ajudam a atender a essa carência fundamental.

O modelo hinduísta, que mais aprecio, diz que todo o mundo é constituído por cinco corpos: de matéria, de emoções, de significados, de suprassignificados e um corpo divino, que está além dos significados. Trata-se de uma compreensão não propriamente de um corpo determinado (exceto o de matéria), mas de um campo que é indeterminado visualmente, como é, por exemplo, o campo gravitacional.

Essa forma de caracterização, de compreensão, que mistura matéria propriamente dita com aquilo que não é matéria, vem de uma antiga discussão dos pensadores da humanidade. Até hoje, de certo modo, procuram-se as substâncias primárias, as partículas fundamentais. Quanto mais se aprofunda a procura dessas partículas, mais se percebe que elas se desdobram, e a busca por elas continua.

O modelo explicativo de que se têm vários corpos, desde o mais denso até o mais sutil, ajuda muito a compreender o exercício de meditação. E como, de certo modo, praticar Yoga é praticar meditação, o modelo acaba sendo muito útil. Mas como é mesmo o processo de meditação? A meditação se realiza em três etapas: concentração, contemplação e transcendência em relação àquilo em que me concentro.

O propósito de concentrar-se é desenvolver a dupla capacidade de focalizar algo e simultaneamente testemunhar a si mesmo, de estar pleno na realidade, estar presente, no espaço e no tempo. Pela natureza humana, ao concentrar-me em algo, eu desenvolvo uma identificação com o objeto da minha concentração. Os filósofos, os pensadores e os físicos também ajudaram a mostrar que não há independência do observado em relação ao observador.

À medida que continuo a me concentrar, a identificação com a realidade continua, mas depois de certo tempo, ela parece desaparecer. Essa é a chave da meditação, quando não preciso mais de esforço para concentrar minha atenção ou contemplar, não há mais dualidade entre mim mesmo e o objeto de observação. O observador e o objeto passam a formar uma coisa só. Percebo a mudança em mim mesmo. Esse é o chamado estado de "samadhi", de transcendência da dualidade. Claro que estou falando de um modo esquemático, para indicar uma compreensão básica, que a experiência transforma em realidade.

E qual é a relação dos cinco corpos com a meditação? Vou antes lá para o Livro Tibetano dos Mortos. Pois o processo de meditar tem suas semelhanças com o de morrer. Segundo esse livro, ao morrer, passo por cinco estágios: nego a realidade, percebo que é real, começo a me adaptar à realidade, aceito e prossigo com ela. Há, inclusive, inúmeros relatos de pessoas que passaram por experiências de quase morte, correspondentes aos cinco estágios do Livro Tibetano dos Mortos. Primeiramente, passa-se um "filme" mental, em alta velocidade, com cada etapa da vida até então, que seria uma forma de transição para uma próxima etapa.

Agora quero fazer a referência com os cinco campos ou corpos. No primeiro momento do morrer, assim como no primeiro momento da meditação, vou-me afastando do corpo material, do corpo feito de comida. O emocional continua acontecendo durante algum tempo após a morte, segundo os tibetanos. Sinto emoções, sentimentos confusos, segundo os relatos. Apaziguados os sentimentos, permanece a compreensão daquilo que está acontecendo, da transição. Passei pelo campo emocional para o corpo ou campo dos significados.

Quando saio da dimensão espaço-tempo (da matéria), o acesso aos significados torna-se completamente diferente. Já não faz mais sentido o tempo, a compreensão linear do universo, da vida. Passo aos suprassignificados, das imagens ancestrais e arquétipos, que formam a cultura em que vivi. E o que acontece depois? Aí nem mais identidade há. Deságuo num campo espiritual, indeterminado, suprassutil. Quando finalmente chego a esse campo, não há mais identificação individual com significados, meta significados, códigos e princípios divinos.

Os cinco corpos ou campos e a técnica de meditação fazem parte de um modelo explicativo, que indica a possibilidade de me descolar um pouco mais de condicionamentos muito fortes, para passar a ver a realidade de uma forma menos restritiva, na qual o espaço-tempo seja percebido de forma relativista.

Nesse modelo, cada um pode desenvolver a habilidade de transcender a dimensão do espaço-tempo, de lidar com o mundo que não é determinado por relações sociais para ir mais perto da essência que não se modifica ("purusha") e que está em todos e cada um. Assim, não preciso esperar morrer para libertar-me das inúmeras identificações, que me prendem às personagens sociais e aos corpos ou campos de sensibilidade e significação.

Pode-se fazer uma nova e agradável maneira de cultivar a felicidade, sem depender de muito poder aquisitivo ou de tecnologias complicadas. A ideia é praticar meditação, como um exercício de identificar-se (e em seguida desidentificar-se) com cada um dos cinco corpos, por meio de objetos materiais, ou representativos de emoções, ou de conceitos atuais, ou de conceitos antigos, ou de inspiração espiritual. Seria como um jogo de dificuldade crescente, que cada um pode jogar consigo mesmo.

Thadeu Martins

 

      

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