Agir ou não agir, eis a questão

Outro dia, um amigo perguntou: "O ego deveria ser encarado como algo prejudicial à evolução pessoal?" Para responder, quero antes recordar o que diz a pensadora Hannah Arendt, em "A condição humana". Segundo ela, há três modos de agir na sociedade: labutar, trabalhar e atuar.

Labutar é o que mais faço: como, durmo, cuido da minha sobrevivência: o que é absolutamente necessário. A segunda atividade é o trabalho, quando transformo algo material em utilidade, um objeto que não existia ou um serviço. A terceira, a atuação, é o que faço o tempo todo, ao interagir, ouvir aos outros, falar, articular meus pensamentos ou as ações coletivas. Todo o mundo vive assim, cada um com a sua história de vida pessoal e social.

Essas três atividades exigem do ego, o "eu" que faz, o sujeito que age, que atua. Esse sujeito, de todos os verbos, é imprescindível na vida social. Sem ele nada é concretizado socialmente, nem individualmente.

Além da ação, existiria alguma outra possibilidade para o ego? Sim, haveria a não ação, que talvez seja tão importante quanto a ação, a depender do contexto. Na circunstância ou estado de não ação, o ego não tem espaço, não tem oportunidade de interferir na vida; fica em paz (ou poderia ficar).

Só no estado de não ação, consegue-se ficar fora do espaço-tempo, fora deste mundo da produção social, e assim poder-se-ia ter acesso a insights. Se apenas a ação for vista como necessária, estarei, o tempo todo, voltado para o lado de fora de mim, e assim não terei oportunidade de captar quem sou e o que estou fazendo aqui. Na perspectiva da não ação, da não interferência, deixa-se a vida seguir por si, abre-se mão da onipotência, do controle sobre tudo e todos, permite-se a receptividade.

Quando pratico Yoga e meditação, quando também estou atento à vida interior, consigo perceber tanto as oportunidades de atuação, de trabalho, de labor como também as de não ação.

Viver, então, pode ser visto como passear por essas quatro oportunidades, em alguma ordem, conforme as circunstâncias e as percepções de realidade, de tal modo a ter-se uma vida plena, com felicidade. Tenho a clareza de que a fixação em apenas uma dessas oportunidades seria desprezar as outras. É óbvio também que não se teria condições materiais de não agir por muito tempo.

O ego, no entanto, é fundamental. Dessas quatro dimensões, ele atua em três. Só não atua no estado de não ação, por estar entregue a essa condição de não interferência. Cultivar o ego virtuoso seria tão importante quanto dirigir um automóvel, conforme os princípios de "direção defensiva", pois é ele (o ego) que está "na rua". O ego é o meu veículo.

Porém, nenhum ego nasce virtuoso, dizem há tempos os filósofos. Ele tem que ser educado para tornar-se virtuoso. Além das circunstâncias e dos muitos educadores, eu, você e todo o mundo pode cultivar em si o ego virtuoso, quando ele é percebido na perspectiva da não ação, Aquela em que posso distanciar-me das pressões e exigências das ações e, assim, orientar-me pelas virtudes que escolhi.

Como o ímpeto de agir é muito forte, eu crio oportunidades para praticar a não ação, em momentos de condições mais favoráveis, com menos pressões, como por exemplo, a hora de dormir. Outras oportunidades regulares são os exercícios diários de meditação e relaxamento. Então, pelo menos na hora de dormir, vale a pena fazer o condicionamento da não ação, para criar o hábito de fazer o ego relaxar, entregar-se.

Na compreensão hinduísta, que adoto aqui, já tenho a dualidade básica da ação e da não ação presente em mim, desde o início. Como se eu fosse dois em um. À medida que vou conhecendo meus "eus", chego à consciência do "eu" mesmo, que está em paz, que não tem que tomar atitudes de interferência. Esse "eu" que não age, mas é "respeitado", que é a referência permanente, que é sem ter que agir. Que orienta o "eu" da ação, o qual labuta, trabalha, atua.

O contraponto ao excesso de ação é o que me permite, em última instância, estar em paz. Posso, no meio do caminho, perceber como é bom e importante abrir mão do exagero da ação. Parece simples: livrar-se de alguns condicionamentos e fazer as coisas no cotidiano de uma forma diferente, mais agradável, melhor, dando uma reduzida na onipotência. Mas não é simples assim! Porque sou formado por hábitos que impedem mudanças e, portanto, o melhor modo de mudar é iniciar e cultivar um novo hábito na direção e sentido que eu almejar.

Cultivar a "prática" da não ação tem sido um bom caminho, para aceitar a possibilidade de paz interior. Diariamente, antes de dormir, induzo essa paz em mim, sinto no próprio corpo, deixo-me dormir assim. A sensação ainda está presente quando acordo no dia seguinte, para a minha sorte.

Thadeu Martins

 

      

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