Não agir seria uma forma de autoajuda

Na filosofia hinduísta, a dualidade do agir e do não agir é compreendida como algo primordial do ser. O agir é representado pelo nome "prakriti"; atua no exterior do "eu". A característica do não agir é chamada de "purusha" e é interior ao "eu".

Normalmente estou voltado para fora, fazendo atividades que focalizam os outros. Fico atento ao que acho que pensam de mim: ou porque quero agradar, ou porque simplesmente não quero que me percebam. O fato é que, nessas situações, a minha atenção está voltada para o exterior.

Quem exerce essa atenção é o meu "eu" sujeito das ações. Mas há um sujeito mais anterior, que nem sujeito está a nada: o "eu" interior, que observa a mim mesmo, que não é o sujeito dos verbos. Poderia dizer que é o sujeito da não ação.

Ao longo da vida, atuo, trabalho e labuto. Mas também tenho a possibilidade de não agir, que nada tem a ver com a preguiça. Trata-se de uma disposição de compreender, de não interferir. Por isso, existe aí uma decisão envolvida.

A não ação significa abrir mão da minha onipotência, da capacidade intencional de controlar tudo, e de deixar a vida acontecer.

Em resumo, sou vários "eus", várias personalidades atuando o tempo todo e também um ator ou atriz fundamental, que sequer nome tem e nem precisa ter. Simplesmente é.

Cultivo a não ação quando medito ou focalizo a atenção em algo sem ficar julgando ou avaliando. Quando isso acontece, sou beneficiado de várias formas. O fato de focalizar, de reduzir o leque de atenções para um único foco, só isso já exerce um efeito apaziguador e mais ainda, reforçador do meu sistema imunológico, da minha saúde.

O sábio Patânjali sugere, como principal opção de meditação, que se cultive o bom humor. Sorrir, lembrar de coisas boas, perceber o que está à minha disposição. Muitas vezes, no entanto, agi como aquele que diz: "eu era feliz e não sabia". Isso acontecia, e por sorte não me acontece mais.

Então, ao cultivar o foco da minha atenção, posso sorrir, fazendo de mim mesmo a razão de alegria. Isso, socialmente também é muito benéfico. Afinal, quando estou bem comigo mesmo, é impressionante como todos se aproximam. As pessoas são naturalmente atraídas pelo bom astral. Quem vai querer chegar perto de uma pessoa carrancuda, que trata a todos com patadas?

Não há bem material, status, dinheiro, loteria, nada melhor do que estar bem consigo mesmo, do que estar normal. Nada é melhor do que estar saudável o tempo todo e cultivar toda potencialidade de felicidade, que sempre tive, em vez de ficar adiando a possibilidade de ser feliz para um dia mais especial que hoje (sobre cuja chegada não tenho nenhum controle).

Thadeu Martins

 

      

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