O ser e o sono

Minha facilidade para dormir chega a ser revoltante, mas muitas pessoas amigas me dizem que têm dificuldade para dormir. Acordam no meio da noite e não conseguem mais cair no sono. No outro dia pela manhã, acordam estressadas e cansadas. A causa da insônia frequentemente é a mesma: estão preocupadas, tentando resolver problemas na hora errada.

Muitas dessas pessoas acham que a sua existência só é justificada se estiver sempre fazendo algo. Mas quando não tiverem o que fazer? Aí pode vir uma depressão ou uma ansiedade, associadas ao que comumente se chama de "vazio interior". Porém, se alguém sentisse de verdade o vazio, estaria no céu! O que é mais sentido é a falta do que fazer, para quem se habituou a sempre ter que fazer algo (para merecer viver), como se o fazer fosse a única condição do existir. Se houvesse algum merecimento, seria mais razoável estar associado ao nascer. Afinal, o fazer ou atuar são oportunidades do viver, dependem das circunstâncias e são transitórios como elas.

Então, aqui vai uma boa notícia para insones: segundo os hinduístas, não é sempre necessário dormir para descansar (tirar o cansaço). Se por alguma razão você acordar e não conseguir mais dormir, pode manter-se consciente e condicionar-se a não agir. Por exemplo, pode praticar o oposto do agir e do dirigir-se para fora e, então, dedicar-se à receptividade, ao receber, ao sentir ao entregar-se.

Se por algum motivo (não grave nem urgente) você não consegue mais dormir, que tal permanecer consciente e dedicar-se a simplesmente sentir o próprio corpo? Se você estiver acordado no "horário oficial da insônia", entre 2h e 6h da madrugada, experimente, durante essas quatro horas, ficar no melhor repouso que alguém pode ter. Você estará consciente, sentindo o próprio corpo, plenamente relaxado, entregue, sem pré-ocupação.

Sentir, nesse caso, é uma forma de meditar. Você pode até se programar para não dormir e ter uma noite ainda mais revigorante: meditando. Ao deitar-se, vá sentindo o seu corpo, da cabeça aos pés e, em seguida, dos pés à cabeça. Vá "mapeando" mentalmente todo o seu corpo pelo sentimento, percebendo cada parte do seu corpo, inclusive os espaços interiores. Perceba o seu coração, começando pela pulsação, na ponta dos dedos, ou diretamente nos pulsos.

O propósito é de uma mudança de hábito, embora, não se mudem hábitos com facilidade. Mudar de hábito é a coisa mais difícil. Para mudar é preciso, de fato, criar-se um novo hábito e cultivá-lo. Além de iniciar ou compreender, é preciso também cultivar. O que sugiro, portanto, é um novo hábito: o de não agir, mas em condições bem favoráveis: na hora em que ninguém está agindo; na hora de dormir. A hipótese ruim, desse novo hábito, é que você pode perder a oportunidade de se sentir, de meditar, e acabar dormindo.

Thadeu Martins

 

      

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