Esse "desejante" objeto do viver

Qual é o propósito da vida? Afinal, há algum propósito em viver? Esse é um tema desafiador. Para alguns, o viver está associado a missões. Outros usam a palavra propósito. A cada dia, mais me convenço de que viver é criar ou aproveitar oportunidades de realizar motivações, mas há muita gente boa que tira todo o drama dessa história, para torná-la mais compreensível, por exemplo...

Vou aproveitar, do livro "A teia da vida", do pesquisador Fritjof Capra (de quem eu sou fã desde "O Tao da Física"), a compreensão de que a vida pode ser esquematizada como um sistema aberto, que faz trocas com o meio ambiente. Essas trocas se destinariam à sobrevivência e ao crescimento do sistema. Aparentemente, o sistema em si não teria propósito nenhum, além da própria sobrevivência.

Ainda com o mesmo texto, todo sistema vivo caracteriza-se por três aspectos: estrutura física (as partes que se constituem dos elementos vivos e materiais); organização (que relaciona as partes da estrutura); e processo (que faz com que a estrutura realize algo). Nesse modelo sistêmico, o viver seria um estado permanente de desequilíbrio, de trocas realizadas por esse sistema com o seu ambiente.

A vida poderia ser vista assim sem nenhuma valoração teológica ou teleológica. Não haveria propósito ou motivação para viver, nem viver em si teria qualquer motivação ou propósito. No entanto, se eu ampliar um pouco mais e olhar para mim mesmo, observarei várias inquietudes, muitas decorrentes do meio externo. Mas há aquelas que não estão associadas a nada que esteja acontecendo fora de mim. São inquietudes que brotam. O desejo seria a principal categoria dessas minhas inquietudes.

Com essa percepção, a vida passa também a ser algo "desejante" e determinada pelo desejar. E aqui preciso diferenciar desejo de vontade. Vontade como uma reação a algo externo ou a um desejo; já o desejo brota a partir de mim mesmo, não é uma reação. Só para ilustrar: enquanto o marketing estimula vontades, provoca reações; a vida faz brotar desejos e iniciativas de seu próprio interior (as quais até podem ser captadas pelo marketing; tudo bem).

Dentro de mim surgem vários desejos. À medida que as circunstâncias permitem, vou atrás da realização deles. Claro, o desejar nem sempre é o suficiente. É preciso ter as condições (ou obtê-las). Mas o fato de ter a motivação pode levar-me a fazer. O desejo é a fonte da motivação. E para realizar desejos, tenho que viver, uso a força da vontade.

Então, viver também é uma disponibilidade que crio a partir dos meus desejos. É uma pré-condição do desejar e exige vontade de viver, para realizar desejos. Como os desejos brotam, sejam quais forem, com que propósito, objetivo ou formas de manifestação, portanto, a vida segue o desejar, assim como "o caminho se faz ao caminhar".

Daí a importância da não ação, para refrear o exagero da ação voltada para o mundo exterior. Esse exagero que acaba impedindo de brotarem os desejos e a vida interior. Se eu ficasse apenas voltado para fora, para o que está exterior a mim, não daria espaço para os desejos surgirem; não haveria vida disponível para eles (nem para mim). Portanto, ao abrir mão de minha onipotência e do exagerar no fazer, à medida que cultivo a não ação, crio condições favoráveis para que os desejos brotem de dentro de mim, do meu íntimo viver.

Thadeu Martins

 

      

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