Liberdade em jogo

Muito do que eu vivo é resultado de ações anteriores, por minha conta ou dos outros. Em ambos os tipos de ação, vejo a noção de liberdade ("moksha") presente. A minha liberdade também se relativiza com a noção de "dharma" e de "karma": uma é a percepção da ordem e do papel de cada um nela; a outra é a noção de causa e consequência, em que uma ação provoca outras.

Quando compreendo o "dharma", a ordem, e o que estou fazendo em uma determinada situação ou instituição, tudo vai-se revelando para mim. E aí, ao adequar o modo como lido com esses ambientes, fica tudo mais fácil e, às vezes, até agradável ou divertido. Quando demoro a compreender, percebo muitos incômodos pela minha inadequação ao lugar, ou às pessoas, ou às situações. Há vezes em que o melhor que faço é sair fora, antes que aconteça algo ruim.

O cerne da compreensão, das minhas atitudes, é perceber-me na ordem, no "dharma". A partir daí, vou vivendo as várias personagens e separando as personagens do ator, em mim mesmo e nos outros. Em determinados momentos, não haverá oportunidade para o ator manifestar-se, apenas as personagens irão atuar, tomarei decisões "kármicas" (de ação e consequências).

Nas organizações, quase sempre isso está presente. Eu percebo que fico imbuído de uma certa aura, que toda organização tem, quando estou em alguma. As pessoas que não estão amarradas ao ritual me ajudam a perceber que a aura do ambiente é apenas uma aura. Eu é que acabo entrando ou não no jogo do ambiente. Vou perceber quem são aqueles, que não conseguem ser ator, com os quais só vou conseguir lidar de personagem para personagem. Outros são sempre o ator das ações. E você, dentro das instituições? O quanto você fica só de ator ou só de personagem e, em que momentos, consegue sair da personagem e entrar no seu ator? Acho que essas questões são bem desafiadoras e ajudam a esclarecer o como se lida com os outros e com o mundo. Cada resposta pessoal pode esclarecer e antever as sequências de ações e consequências.

Ao perceber o jogo (o "dharma"), posso optar por continuar ou sair dele. Se sair, já não haverá necessidade de prestar atenção nele. Se entrar, vou jogar (o "karma"). E isso exclui o ficar brigando contra o jogo. Vou usar as regras, o território, o blefe; vou jogar. Afinal, praticamente todas as atividades humanas são de algum tipo de jogo (estou com o "Homo Ludens", do Huizinga). Ao perceber que estou jogando, a sensação de liberdade aumenta; nesse caso, cabe a mim perceber, tanto melhor, o jogo e os jogadores. Assim, posso até me divertir. Ganhar ou perder é apenas circunstancial. O mais importante é a interação que o jogo proporciona, se eu quiser continuar a jogar...

No "karma", a liberdade está inteiramente associada à ação, que, por sua vez, faz parte de uma ordem ("dharma"). Ora, como posso trazer o conceito de liberdade para a minha ação? Dizem os sábios que a liberdade na ação é maior quando a ação independe do quanto se pretender aproveitar pessoalmente dos resultados dela. Ou seja, a liberdade da ação desinteressada. Faz-se porque se tem que fazer, porque se quer, porque é válido ou legítimo fazer. Se for para fazer, é para fazer bem feito, com dedicação, de verdade. O propósito é a ação em si mesma.

A minha ação, no entanto, é também influenciada pela minha percepção do "dharma" (as expectativas externas a mim), pois as minhas expectativas pessoais ajustam-se, de algum modo, ao contexto que me contém e condicionam a minha labuta, o meu trabalho e a minha atuação. Por isso, gosto de lembrar, neste assunto, a compreensão budista do trabalho que li no "Small is Beautiful", de Schumacher. Ela ilustra uma percepção bem distinta da ocidental para o significado do trabalho.

Nela, o trabalhar (uma das três formas de realizar o "karma") teria três utilidades: dar-me oportunidade para realizar algo em conjunto com outras pessoas, permitir o desenvolvimento e a aplicação das capacidades pessoais e obter meios de sobrevivência. Nessa perspectiva, aquele que realiza a ação poderá ser recompensado, embora aja sem estar obcecado pelos resultados dela. Esse é um exemplo de harmonia entre "dharma" e "karma" (a compreensão do ambiente e da ordem com a ação correspondente).

Compreender "dharma" e "karma" me ajuda a cultivar a liberdade no cotidiano, sem ficar restrito às oportunidades de situações especiais, porque estas ocorrem poucas vezes, enquanto, na maior parte do tempo, vivo em ação: jogando o jogo do viver com liberdade (sempre relativa).

Thadeu Martins

 

      

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