Organização pessoal e suporte social

Observo que, nos últimos anos, a população veio a concentrar-se nos grandes centros urbanos e que as pessoas, ao saírem de suas cidades de origem, perdem os laços com o seu ambiente e cultura familiar. Observo também que é nas igrejas, ou nos templos, que muitos encontram estímulo para um código de conduta e sentirem-se inseridos em comunidades.

As igrejas ou templos, de modo geral, podem ter um papel de apaziguamento social. De certo modo, complementam a função da família na adequação do indivíduo à sociedade; ajudam a evitar o crescente anonimato urbano, nos dias de hoje, ou seja, a perda do significado individual e da referência familiar. Essas duas condições, entre outras, são provocadoras de transtornos mentais e comportamentais.

Onde há estrutura familiar forte ou coesa, a quantidade de perturbações e complicações decorrentes do isolamento é muito menor. Talvez um dos segredos da longevidade social da Índia seja a densidade religiosa. Lá, todo mundo é religioso. Apesar da miséria, há uma extraordinária integridade social. Com uma população que transborda um bilhão de pessoas – em que pelo menos 700 milhões estão muito abaixo da linha da pobreza. A Índia tinha tudo para viver em permanente convulsão social. Mas lá, tanto a estrutura familiar como o tecido social são muito fortes. Então, mesmo em situações inimagináveis de pobreza e miséria, tudo se mantém estruturado. Isso permite que as pessoas sobrevivam e evita que muitos conflitos se generalizem.

A natureza da vida é de contínua estruturação. Na natureza há uma necessidade de organização. A matéria em si mesma traz um ordenamento. Ela auto-organiza-se. Observo que ao limpar-se uma casa, por exemplo, o que se faz é desestruturar a organização natural da sujeira, para que ela não se estabeleça (evita-se que ela se organize ou reorganize, como tudo na natureza).

Em termos sociais, quando a bagunça prevalece sobre o ordenamento, a sociedade esvai-se. Também em termos pessoais, preciso cuidar da minha organização, desorganizar aquilo que me prejudica. Quando percebo ter um comportamento que me está prejudicando, chegou a hora de desestruturá-lo. Se eu permitir que ele continue a se estruturar, em pouco tempo posso virar um joguete desse comportamento nocivo. O que me faz mal com regularidade está organizado e estruturado contra mim, por mim mesmo em geral.

O que faço para desestruturar meus hábitos nocivos (quando os percebo) é radical. Primeiro pela interrupção, pela restrição; depois pela criação de artifícios de mudança, como: respirar profundamente algumas vezes, fazer ou pensar outras coisas, ir contando o número de vezes que respiro, até passar de trinta vezes (se a contagem perder-se, começo a contar de novo). Quase sempre funciona. Preciso impedir o caminho habitual do que me faz mal (ou pelo qual me faço mal). Assim, o cérebro é levado a focalizar outras emoções, outras opções de comportamento, outras possibilidades de sentimentos e ações correspondentes.

Também vale procurar ajuda, porque as chances de mudança são facilitadas por um ambiente de reforço afetivo de amigos, grupos de apoio, terapeutas, família, círculos religiosos, o que estiver ao alcance e a falta de orgulho ou vergonha permitir. Aqui volto à organização familiar, religiosa, social, pois não se vive em isolamento.

Porém, percebo como a tarefa mais difícil o estudar e compreender a origem dos sintomas do que aparentemente me aflige, em cada situação, pois, em geral, a origem do comportamento nocivo faz com que ele seja recorrente ("afinal, por que eu continuo agindo dessa forma que me faz mal?"). Para isso vale recorrer aos psicólogos, aos psiquiatras, aos mestres espirituais ou às pessoas em quem se confia pela sua sabedoria e bom exemplo. Não dá para enfrentar tudo sozinho. Pedir ajuda também é sabedoria de viver.

Cada um sabe de si, mas uma pergunta que costumo fazer – "preciso mesmo disso para viver, para ser feliz?" – quase sempre evidencia que tenho opções de caminhos de vida mais simples, com menos obrigações insuportáveis, com menos pressões de prazos e tempos mal negociados, com menos expectativas minhas e dos outros sobre mim.

Thadeu Martins

 

      

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