Salto vital e fugaz

Todo o mundo tem necessidade de um sentido de ordenamento, de sequência, de causa e efeito, de propósito. Por isso, criam-se modelos de compreensão, que ajudam a viver, embora não sejam a própria realidade nem substitutos para ela. O real mesmo é o "aqui e agora". Fora disso, tudo é representação, alusão, indicação no mapa, não no território.

Isso, de certo modo, ocorre em todas as nuances da vida. Conforme lembrava o historiador Arnold Toynbee, eu, você e todo o mundo é um ser anfíbio, com os pés na terra e a cabeça no oceano conceitual. Ou seja, vive-se ao mesmo tempo num mundo material e num mundo conceitual, e este cria ordenamentos e modelos.

Ao expressar um modelo de compreensão da realidade, reproduz-se uma mescla do que a natureza ou as circunstâncias oferecem ou impõem. É desse modo que a vida se forma (natureza versus educação). O que se diz sobre algo é sempre uma referência, derivação de um modelo, uma racionalização da realidade, que pretende substituir o real.

Cada vez que me refiro à realidade, tenho uma experiência concreta. Quando transfiro essa experiência para quem não a viveu, represento a minha experiência para alguém. Esse, por sua vez, conta o que ouviu para outra pessoa. Assim, a mesma história vai sendo contada ao longo do tempo, com algumas alterações, até constituir algo simbólico, que não precisa mais ter nada a ver com o real, com o material que deu origem àquela história. Desse modo, o simbolismo vai sendo construído, lá dentro de cada um, que foi contanto a "mesma" história, e satisfazendo à própria necessidade de ordenamento.

Eu, você e todo o mundo tem, com uma rede interna de mais de dez bilhões de neurônios, a própria percepção da realidade. Percebo, interpreto, traduzo e transmito essa realidade em todos os momentos. E para tornar a convivência possível com outras pessoas, vou-me acomodando, criando pactos. Foi dessa forma que os meus ancestrais conseguiram sobreviver num ambiente hostil, cheio de predadores, com um corpo extremamente frágil. Tudo graças à extraordinária capacidade simbólica, de ordenamento e de acomodação social.

Têm-se, portanto, sequências simbólicas bastante antigas. Por exemplo, todas as comemorações cristãs – Natal, Páscoa, São João e outras – são referências a cultos pagãos (do ponto de vista cristão), relacionados aos equinócios e solstícios. Isso tudo tem pelo menos dez mil anos, enquanto os evangelhos foram reescritos (na forma hoje conhecida) a partir do séc. IV, segundo valores do Império Romano de Constantino. Foram relatos transmitidos em forma conveniente a uma determinada época. Então, a história transcrita nesse exemplo, dos cânones da Igreja Católica, reproduz uma conveniência circunstancial criada no séc. IV.

Quase tudo com o qual se tem contato hoje, como dogma estabelecido, também é circunstancial, surgido num determinado momento da história, num contexto político, social e econômico de poder e linguagem, que permitiu seu surgimento. A partir de princípios como esses, criam-se condicionamentos, estabelecem-se situações de poder e chega-se até agora em configurações de acomodação de sobrevivência, que interessam a quem está vivo.

Vão-se vivenciando as experiências possíveis, de acordo com o que a época e as circunstâncias permitem. Osman Lins, escritor brasileiro, faz uma bela representação da vida como o salto de um peixe, no livro "Avalovara". Viver seria o salto do peixe, que tem a experiência de estar sendo real: de individualidade. De repente, do indeterminado, que é o fundo do oceano, surge, de um salto, um peixe, que logo volta para as profundezas das águas. Surge o indivíduo e logo desaparece. Esse indivíduo que surge, teve a experiência da individualidade. E pode acontecer de tudo com ele: raios, tempestades, pássaros que podem comer o peixe; ou até não acontecer nada. Cada um que está vivo, no seu salto do indeterminado até a volta, terá a sua experiência concreta do real.

Também pode ocorrer de um cardume saltar, e cada um dos seus peixes ter a própria experiência de individualidade. Posso chamar o cardume de "evento de uma mesma geração". Cada geração compartilha modelos de compreensão da realidade, dando o salto do peixe na mesma época. As verdades que assim se compartilham são relativas, de acordo com o histórico e a geração de cada um, com o cardume de cada um, com o que lhe antecedeu. Assim, as experiências podem ser muito semelhantes e simultaneamente distintas entre si. A vivência de individualidade única está mesclada com o coletivo de cada geração e com a indeterminação, que lhe veio a anteceder e virá a suceder-lhe.

Para alguns há, no entanto, a possibilidade de habituar-se a reduzir os excessos de informação e solicitações sociais e a compreender que os modelos, de representação ou compreensão, condicionam bastante o que se vive. Para esses yogues urbanos, abre-se a possibilidade de perceber a realidade de modo mais direto e menos confuso. Para esses, não é preciso morrer para que a alma libere-se da cidade e do turbilhão social. Para esses, é possível viver de modo socialmente responsável, humanamente feliz, espiritualmente em harmonia; e são pessoas iguais às que eu vejo no espelho todos os dias.

Thadeu Martins

 

      

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