"Dharma" de ontem e de hoje

Yoga não surgiu do nada; foi constituído ao longo da formação do Hinduísmo, o qual, como qualquer outro "ismo", é uma construção histórica, antecedida pelo cotidiano de uma sobrevivência ancestral. No crescimento de uma civilização, é criado um ordenamento que garante a sobrevivência da maioria. São estabelecidas regras, muitas vezes à força, por uma determinação de poder que cria uma ordem de convivência. Vão-se criando histórias, observando-se princípios e tudo o mais que é ordenador. Com isso, chega-se à sofisticação cultural, social e filosófica, e cristalizam-se modelos explicativos da realidade.

O modelo de explicação chamado – pelos europeus – de Hinduísmo refere-se à civilização surgida na região entre os rios Sarasvati e Indus. Essa cultura parece ter-se estabilizado por volta de quatro mil anos a.C.; surgiu bem antes da era cristã. Nessa civilização criou-se uma compreensão da realidade e construiu-se uma visão do universo, a qual, portanto, está na base das escolas de pensamento constituídas na Índia.

Cada vez que se volta na história, encontram-se modelos explicativos bastante complexos, mas todos eles vão-se acumulando, acrescentando-se uns aos outros. No entanto, o que possibilitou a sobrevivência humana, por milhares de anos, foi a capacidade de criar um sistema de regulação social dos comportamentos. Todos podem ter liberdade de fazer o que quiserem, até o limite que a organização social estabelecer.

Talvez por isso, o sábio Patânjali tenha enfatizado o controle do comportamento social, por meio de restrições ("yamas") e de estímulos (não restrições ou "niyamas"). Por um lado, os "yamas": evitar o ofender, evitar o mentir, evitar a dispersão do Ser (que alguns traduzem como "evitar o abuso da sexualidade"), evitar o roubar, evitar o cobiçar. Por outro lado, os "niyamas": cultivar a pureza, cultivar o contentamento, cultivar a tenacidade e persistência, cultivar o estudo, render-se à vontade divina ("Ishivara pranidana"). Esses comportamentos propiciariam que eu, você e todo o mundo pudesse estar bem resolvido habitualmente.

Em outras palavras, fazer Yoga seria praticar atitudes e controles para agir bem, em qualquer contexto: compreender a ordem, o "dharma" – saber onde se está e com que papel –; tratar o corpo, com atitudes de autopreservação, cuidado e cura; adequar a energia com a atividade, conforme as circunstâncias; controlar a própria mente; realizar a felicidade presente.

No entanto, é a mente que condiciona a percepção da realidade. Desde sempre, ela percebe, registra memórias; as memórias conectam-se e criam noções de tempo e espaço. Com isso, pode-se viver o tempo todo no presente, projetar o futuro, rememorar o passado e agregar essas três possibilidades. Para alguns esse processo pode ser fácil e tranquilo, para outros nem tanto. Estes precisariam desenvolver a prática do controle mental, por exemplo, por meio de Yoga.

Thadeu Martins

 

      

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