Estudar é preciso, viver... também

Como já observei, em Yoga, dá-se ênfase ao cultivo de cinco estímulos: da pureza, do contentamento, da tenacidade, do estudo e da humildade – "render-se à vontade divina" ("ishivara pranidana"). Aqui vou destacar o estudar para compreender o contexto, em que se está. Patânjali estimula o estudo não apenas do momento atual, mas também das "escrituras", das origens da cultura atual, para compreender como se chegou até hoje e aonde se irá (mais provavelmente).

Vale, para tanto, comparar diferentes perspectivas culturais. Por exemplo, na tradição hinduísta, não há separação entre mim e Deus (o princípio divino considerado). Todo mundo é simultaneamente matéria e divindade desde a origem. Sou mundano e sagrado. A vida surge com a dualidade manifestada e não manifestada. Não haveria, portanto, necessidade de intermediação artificial, mesmo que haja forte estímulo social ao estudo, à compreensão, ao culto da divindade.

Assim, eu poderia dizer que, cada pessoa nasce divina, mas que a vida pode levar a tantas direções simultaneamente e exigir tantas coisas, que não permitam perceber que se é divino e, em vez disso, a pessoa pode tornar-se apenas alguém, que mal consegue articular-se para sobreviver. Como aquela fábula da águia que vivia no galinheiro desde que nasceu, vivia ciscando como uma galinha, até que um dia percebeu a sua verdadeira natureza e saiu voando, para muito além do galinheiro.

Há tempos, o sábio Patânjali chama atenção para a importância do estudo e do auto estudo, para compreender e desvelar a natureza essencial em relação às muitas aparências que lhe são atribuídas.

A minha percepção da realidade é condicionada pelo que já tenho – basicamente na memória, construída pelo passado. Se a memória estiver sobre bases equivocadas, posso tomar decisões absolutamente inadequadas, lidar com a realidade de um modo que não vai dar certo; porque os princípios adotados não são adequados a essa realidade. E qual seria o princípio mais adequado a uma determinada realidade? Difícil responder! Posso tentar compreender o passado ao olhar pelo espelho retrovisor (que é o que de fato está à minha frente), mas para compreender o que uma tendência revela, exige-se mais de atenção, de percepção do presente e de projeção de futuro.

As filosofias, as religiões, as escolas, de modo geral, são muito eficientes em oferecer as tecnologias de viver em comunidade, de obter sucesso coletivo, com as quais cria-se a possibilidade de o indivíduo sobreviver no coletivo em que estiver inserido. É por essas razões que compreendo o porquê da prática de Yoga referir-se tanto ao coletivo social como ao essencial, manifestado na individualidade. O propósito é o de realizar a condição de "moksha", liberação – liberar-se do contexto social para conseguir conviver com ele, sobreviver a ele e contribuir para que ele fique melhor. A pré-condição, necessária, é a "cessação dos turbilhões da mente", o controle mental para perceber melhor onde estou, com quem estou interagindo, qual é o papel a exercer, quais são as possibilidades de ação ou de não ação e, assim, realizar a existência de modo integrado.

Thadeu Martins

 

      

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