O desafio de ser livre

Quase sempre as pessoas se referem a Yoga de duas maneiras: como algo muito esotérico, com figuras que parecem de outro mundo e vivem experiências fantásticas de iluminação; ou como algo restrito a pessoas com grande flexibilidade corporal, verdadeiros contorcionistas. Na verdade, essas imagens são apenas caricaturas. O praticante de Yoga, além de seguir as dicas do Patânjali, é uma pessoa que resolveu prestar atenção em si, nos outros, na vida, no mundo, de modo que o seu viver seja bom para ela e para todos, e que também propicie ir além da mera sobrevivência cotidiana.

A prática de Yoga está associada a uma palavra que em português se chama meditação. Também poderia ser chamada de contemplação. Meditação e Yoga são quase uma coisa só. Poderia dizer que Yoga constitui a orientação geral, que tem na meditação o principal exercício. Seu propósito é buscar o estado de felicidade, consigo mesmo e com os outros. Em sânscrito, esse propósito tem o nome de "moksha", que significa liberação.

O maior desafio, no entanto, é conseguir harmonizar o bem-estar com as pressões externas. Ao longo da vida, cada um vai-se adaptando ao mundo e criando o próprio esquema de sobrevivência social. Consegue-se ser aceito socialmente. De algum modo, descobrem-se algumas fórmulas que dão certo. Mas isso acaba exigindo alguma conformação. Então, eu, você e todo o mundo é a expressão dessa conformação que adotou. Em alguns casos, ela é perfeita, na medida do bem-estar de cada um. Se eu perceber alguma medida de desconforto, é uma indicação de que algo precisa ser mudado em minha vida. Perceber isso nem sempre é imediato para mim, pois, não fui ensinado em casa ou na escola a esse respeito (ou não prestei a atenção devida).

Às vezes, começo a perceber intensamente o desconforto e me exaspero, quero mudar. O problema seguinte será compreender, dentro da minha realidade pessoal, o que poderei fazer para melhorar de fato (pois não se trata de mudar por mudar). Para seguir este raciocínio, vou recorrer às atitudes que se cultivam em Yoga, como a principal tecnologia de trato social, pois, quase sempre, os meus problemas remetem a questões de relacionamento: como lidar com os outros de forma harmoniosa.

Então, a primeira atitude que cultivo em Yoga é perceber o ambiente. Assim, consigo harmonizar a minha liberdade com as restrições que o ambiente impõe. Em seguida vem a atitude de perceber-me, não só fisicamente, mas principalmente perceber com que ou quem me identifico, de modo a cultivar virtudes, qualidades e características que sejam preciosas. Em contrapartida, vem a terceira atitude, a de desapego, em relação não apenas ao que não mais necessito, mas sobretudo com quase tudo com o que me identifiquei, de modo a cultivar a maior de todas as liberdades: a de simplesmente viver até morrer. Para tanto, ainda vou-me valer de uma quarta atitude, a da autoconfiança, a qual é gradualmente desenvolvida em conjunto com a prática das três anteriores.

Bem, essas atitudes são pré-condições, não bastam por si para que eu supere meus desconfortos, mas me predispõem a esclarecer, compreender e superar os sentimentos e comportamentos que fazem meus desconfortos. Os exercícios de meditação, respiração e as posturas de alongamento dão-me oportunidades físicas para praticar introspectivamente essas atitudes e aperfeiçoar as condições de liberação e bem viver. Pratico e prossigo.

Thadeu Martins

 

      

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