Aprendendo a viver e a morrer na graça divina

Em Yoga, repito, cultivo quatro atitudes essenciais, que também estão associadas aos exercícios de postura física: consciência do mundo exterior, percepção do próprio interior, desapego e autoconfiança. Perceber o que é exterior é compreender o ambiente, o que ele exige para se estar ali; enfim, o modo mais adequado de se comportar naquele ambiente. Em contrapartida, na consciência de mim mesmo, eu me percebo e referencio-me a um modelo com o qual me identifico. E isso pode suceder várias vezes ao longo da vida, continuamente.

Mas com quem, mesmo, eu me percebo identificado? Que "eu" é esse com o qual me identifico? Seria o "eu mesmo" que vejo no fundo da imagem reletida no espelho? Seria uma personagem que assumi no cotidiano? Essas perguntas podem levar a uma discussão sem fim.

Os yogues procuram tornar mais objetivo esse processo. Na meditação, por exemplo, posso identificar-me com o que eu observar atentamente: uma pessoa, uma imagem, um objeto. Observar com a intenção de "querer ser" aquilo que observo. Haverá um momento em que, ao fechar os olhos, serei capaz de ver o que observava. Dá-se naturalmente uma identificação. Primeiro eu me concentro ("dharana"), olho fixamente. Depois passo para o estado de contemplação ("dhyana") – palavra que, por um processo de transição, da antiga Índia até o Japão, tornou-se "zen". Nesse estado contemplativo, não há mais esforço. Há ainda o terceiro estágio – "samadhi" –, quando abro mão da identificação: eu com o que observo passo a formar um todo, para a minha percepção, uma coisa só.

A identificação, pela observação frequente, ocorre com todas as pessoas, todos os dias. A gente se habitua ao ambiente e, quando algo muda, percebe-se a mudança, pois já se estava identificado com o ambiente. Também identifico-me comigo mesmo, com o nome que me deram e com várias imagens, com as quais me vejo continuamente ou várias vezes. No cotidiano, algumas coisas são mais percebidas do que outras e, portanto, com elas haverá mais identificação. Então, se eu quiser fazer um ritual de meditação com qualquer uma dessas pessoas, qualidades, situações ou coisas, poderei cultivar, em mim, o estado de "samadhi" em relação a elas. Desse modo, eu estaria seguindo o passo a passo da meditação ("dharana", "dhyana", "samadhi"), para superar a identificação, por meio desse exercício clássico.

Seria como se, na vida pessoal, se abandonassem os pronomes possessivos e seus conceitos, para desapegar, "desidentificar", e passar a lidar naturalmente com a realidade como ela é simplesmente. Essa "desidentificação" se dá em relação a um "si mesmo" ilusório, ao qual se está habituado.

Eu, você e todo o mundo pode também aperfeiçoar o modo de ser, de agir e de reconhecer a autoimagem, na medida em que cultivar identificações com pessoas exemplares, com as quais se tenha simpatia e admiração, assim como evitar exageros de atenção para encrencas, pessoas de baixo astral e ressentimentos (para evitar identificação com estas). Então, num propósito operacional, posso aperfeiçoar-me e superar desconfortos.

Porém, o propósito que o mestre Patânjali sugere é a liberação na vida e a preparação para algo que é inerente a ela: a morte. Morrer também é um processo de "desidentificação", semelhante ao de meditação; no qual vou-me fixar em uma imagem, abandonar o corpo físico, as emoções e os significados; sair, literalmente, do mundo e passar a um estado de graça. A prática de meditação me habitua a um processo controlável de aperfeiçoamento e de abrir mão das identificações, para colocar-me em um estado de liberdade inigualável, tanto para lidar com a vida, quanto para lidar com a morte.

Thadeu Martins

 

      

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