A arte de não agir

Viver é agir, mas não preciso sobreagir, exagerar no agir. O cansaço é um sintoma de que estou indo além do necessário, ou pelo menos além do meu limite – senão, não precisaria "des-cansar". O não agir também é necessário, e a prática de Yoga também inclui o cultivo da não ação. Por exemplo, propõe-se o exercício de ficar sentado, em silêncio, de olhos fechados, serenando a agitação mental. Essa forma de estar sentado, com a coluna ereta (com a sua curvatura normal), e as mãos colocadas uma sobre a outra, apoiadas à altura do ventre, ou sobre as coxas, também é comum nas práticas de meditação, em que se cultiva um estado de contemplação, um estado "zen", como se diz frequentemente.

Porém, a meditação clássica vai além de ficar nessa posição física. Ela segue três estágios: o primeiro é "dharana", concentrar-se, focalizar a atenção em algo; o segundo é "dhyana", contemplar – que é simplesmente a passagem do primeiro para o segundo estágio – que se dá pela continuidade, sem esforço; e por último atinge-se o estágio de "samadhi" (em que o meditador sente-se em comunhão com o que observa na concentração).

Quem não estiver habituado a meditar, a cultivar esse estado consciente de não ação, pode sentir dificuldade de iniciar-se nessa prática. Algumas dicas podem ajudar bastante, como ir colocando a atenção em cada parte do próprio corpo, desde a cabeça até os pés e assim sentir, perceber, cada uma dessas partes; em seguida, sentir todas as partes do corpo ao mesmo tempo. Pode-se, a seguir, imaginar um espelho diante de si e passar a sentir cada parte do corpo, cuja imagem reflete-se nesse espelho imaginário. O espelho pode ir mudando de posição (ora à esquerda, ora à direita, ora por trás, ora por cima) e prosseguir-se sentindo as partes do próprio corpo, que se vão refletindo no espelho em cada posição. Outra dica é focalizar os olhos fechados na luminosidade que se percebe entre as sobrancelhas e assim permanecer por um bom tempo. Todas essas dicas podem ser aplicadas em seguida, uma à outra, de modo que o tempo total seja de uns dez ou quinze minutos ou o tempo que se quiser.

É óbvio que, enquanto se permanece assim, nessas posturas meditativas, o mundo continua a manifestar-se, os sons prosseguem acontecendo, continua-se a respirar, e pensamentos ou imagens também podem surgir na mente. Tudo isso é normal e, portanto, prossegue-se sem abalos: percebe-se tudo, mas presta-se uma atenção focalizada, por exemplo, na região entre as sobrancelhas (pode-se notar uma luminosidade aí) ou em algum objeto que se tenha escolhido para mirar a atenção. À medida que o hábito de meditar vai-se repetindo, vai ficando mais fácil (mesmo com alguma dificuldade eventual).

Esses são artifícios para focalizar a atenção em algo, que não tem nada a ver com a vida social e, por isso, propiciam a não ação. Há vários outros, como alternar a atenção nos sons ao redor e no movimento respiratório, de ora inspirar, ora expirar. Entre outros benefícios, isso facilita administrar o estresse pessoal e estar mais presente nas situações da vida.

Além de cultivar a não ação, por meio de meditar, também se incentivam as quatro atitudes básicas, as quais ajudam a enfrentar as situações estressantes: perceber onde se está, perceber-se em relação ao ambiente em que se está, perceber o quanto se apegar ou desapegar nessas situações e manter a autoconfiança.

Destaca-se, em Yoga, a percepção social e de si mesmo no ambiente em que se está, de modo a manter um nível baixo de estresse, embora algum estresse seja inevitável e às vezes necessário. Também o desapego é enfatizado, para cultivar-se a sensação de leveza e de liberdade. O propósito é perceber-se onde se está, como se interage socialmente e o quanto essa interação social permite liberação, viver em paz e ter leveza.

Yoga tem total relação com a prática social: observação, atitudes, revisão de comportamentos. Isso pode vir a exigir uma mudança de hábitos pessoais, o que é muitas vezes bem exigente, pois naturalmente procura-se manter uma situação de conforto. Resiste-se às mudanças – mesmo quando esse conforto não é tão confortável assim.

No entanto, os exercícios preparatórios que foram indicados são tão fáceis e agradáveis, que basta começar a fazê-los, para já sentir resultados positivos. Daí, é prosseguir diariamente, e ir descobrindo prazer em fazer os exercícios. Também vai-se perceber que há muitas ocasiões (em casa, no trabalho, na escola, até numa fila de espera) que são oportunidades para praticar alguma forma de meditação ou de não agir. Espero que você perceba e curta o não fazer nada.

Thadeu Martins



      

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