Por uma vida mais contemplativa

A palavra contemplação pode ser entendida de uma forma bastante ampla, como participação, inclusive. Distintamente do que muitos podem pensar, contemplar não é apartar-se.

Indo às origens, o sentido de contemplar é o de tornar-se uno com o que se está observando. Como se o observador e o objeto da observação pudessem tornar-se uma coisa só. Parte-se do estágio de concentração para o de contemplação. A partir daí, transcende-se a aparente dualidade (observador e observado). Chega-se então ao estágio de "samadhi", em que a dualidade já não mais existe. Isso é possível porque os limites desenhados para o conviver, segundo uma determinada ordem, são apenas um desenho, uma convenção, um costume compartilhado e que pode ser superado e transcendido.

O contemplar, do qual estou falando, vai além do verbo do código linguístico, para alcançar o que era originalmente, na história do Yoga e do seu modo de meditar. Dessa forma, o que caracteriza mesmo a contemplação ou meditação é o identificar-se com o que se contempla e, em seguida, livrar-se dessa identificação.

O exercício de meditação é o de estimular a identificação, levá-la ao ápice e então "desidentificar"-se, distanciar-se da identificação. Leva-se o próprio "eu" a colocar-se em algo, seja um objeto, uma árvore, um conhecimento ou até uma equação. Leva-se o "eu" a transformar-se no objeto de observação, até não se o perceber mais como apenas uma individualidade.

Na vida, em algum momento, eu, você e todo o mundo passa a perceber-se como indivíduo, tem-se consciência de si próprio. Em seguida, percebem-se os nomes, as denominações que se ganham, percebem-se as várias identificações que são assumidas, que são os papéis circunstanciais – pai, mãe, professor, empresário. Vivencio essas várias personagens, vou-me identificando com todas elas e vivendo essas muitas personalidades.

No entanto, também posso (ou tenho que) perceber que, além dessas personagens, existe alguém que assume esses vários papéis (eu mesmo). Percebo, portanto, que sou capaz de tornar-me isso ou aquilo, e de tornar-me também o objeto de meu estudo, de meu interesse. Porém, ao mesmo tempo, permaneço capaz de perceber que não sou aquele objeto. Portanto, posso tanto identificar-me quanto "desidentificar"-me.

Ao "desidentificar"-me, perguntas poderiam surgir, como "quem sou eu, afinal?". São perguntas que carregam uma série de intenções; trazem um princípio perguntador, que me quer levar a algum lugar. Já o oposto desse comportamento de análise seria o de contemplar, entregar-me e, ao mesmo tempo, integrar-me. Nesse outro caminho, não faço perguntas, nem me ocupo em identificar-me: eu opto por me concentrar a ponto de vivenciar aquilo que observo com atenção.

Desse modo, portanto, o contemplar dos três verbos da meditação – concentrar, contemplar e transcender – é um caminho sem perguntas, de entrega. Abre-se mão do agir, dos comportamentos habituais, que se tornaram uma identidade.

Entretanto, o abrir mão dos muitos nomes que se têm, dos hábitos, desse "quem sou" é muito exigente. O caminho do não agir começa restringindo toda a personalidade que foi formada. Deixo de agir e concentro-me, com a intenção de entregar-me e transcender. De repente passo a perceber a maravilha de estar vivo; tiro os óculos ou as lentes da personalidade e deixo-me ver a vida prosseguir, como ela também pode ser, se eu a mim permitir.

Thadeu Martins

 

      

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