Mude de estação enquanto você pode

Eu, você e todo o mundo é um tipo de ser mental e, por isso mesmo, se está sujeito às armadilhas da mente. Segundo o sábio Patânjali, essas ciladas (as formas de movimentação mental) são de cinco categorias: o conhecimento certo, o errado, a fantasia, o sono e a memória. Agora, vou-me ater à memória.

Sou um organismo criador de memória. Basicamente, o ser humano se relaciona e cria memória. E aí é que mora o perigo, pois, ao criar cada memória, formo mais uma referência importante para a minha vida. Por um lado, os acertos que tenho são baseados nos erros e acertos que já tive. Por outro, em muitas das vezes, fico preso à memória. Com isso vem o medo e todo tipo de elaboração mental baseada em realidades que existiram, mas não existem mais: de fatos passados. Fico tão tomado pela vivência do passado que não consigo me desligar dele.

Eu, você também e todo o mundo continuará a fazer isso, a apegar-se ao passado. Os viventes são assim há milhões de anos, desde quando a mente surgiu. O que Patânjali sugere, para lidar com essa característica mental, é administrar melhor essa natureza. Afinal, na grande maioria das vezes, a memória é bastante positiva. O que é negativo é permanecer apenas fixado nela.

Nos exercícios de Yoga e meditação, treina-se como lidar com esse processo mental – seja o do conhecimento, da fantasia, do sono, ou da memória. A intenção é criar-se o hábito de neutralizar os movimentos mentais. Talvez, eu não vá conseguir isso nunca, mas posso ter ao menos um certo controle, dependendo da capacidade que eu prosseguir a desenvolver e dos hábitos que eu cultivar. Então, como eu estou-me habituando a controlar meus pensamentos, vou percebendo que não é tão difícil assim. Com a prática, tem ficado mais fácil e assim vou ganhando algum domínio sobre os ambientes nos quais estou e principalmente sobre mim mesmo. Vou deixando de ficar refém dos pensamentos autônomos.

Assim, venho também mudando a sintonia mental que me leva ao estresse e, portanto, tenho conseguido conduzir a mente a outras estações mais favoráveis ao bem-estar. Para isso, vale tudo: relaxar, ouvir música, desenhar, colorir mandalas, conversar com amigos e outros meios que surjam. O importante é criar (ou manter) esse hábito, ou o ritual propiciador da mudança de estação. Isso constitui uma pré-condição para evitar o estresse exagerado, que acentua o sofrer.

Patânjali destaca, ainda, que são cinco as causas de sofrimento: a ignorância, o egotismo (ignorância que exagera a importância individual), o apego exagerado ao que dá prazer, a aversão exagerada ao que causa sofrimento e o receio da morte. Ele não discorda que viver é sofrer – isso é uma unanimidade –, mas ressalta que se pode superar o sofrimento.

Então, se você, eventualmente, começar a sofrer demais, o melhor é mudar logo de estação. Em seguida, pedir ajuda para lidar com a sua crise. Depois, desenvolver o hábito regular de esclarecer, compreender, aceitar a realidade e prosseguir, de modo a tratar com atenção e consequência as causas e condições que propiciam o seu sofrer. Você vai descobrir (como eu) algumas condições ao alcance (às vezes com a ajuda de amigos) de tornar o sofrimento mais suportável ou até superável, como, por exemplo, parece ser o caso dos poetas, dos compositores e dos artistas em geral, que cantam ou representam os seus males e prosseguem na vida produzindo beleza.

Thadeu Martins

 

      

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