Vou-me transformando no que pratico

As pessoas me dizem que a maior dificuldade que elas têm para meditar é que, mesmo quando param suas atividades, a cabeça não para, pois fica tomada pelas reminiscências, pelos pensamentos. Elas ficam dispersas e não conseguem meditar; e assim a vida restringe-se ao lidar com os problemas ou com as dispersões mentais que acontecem.

Nessas situações, as pessoas estão voltadas para o exterior, para fora do seu próprio controle; estão sendo reativas às solicitações que são feitas: do trabalho, da labuta e das reminiscências mentais. Em contraposição, a prática de Yoga proporciona a oportunidade de agir e não apenas reagir. Agir num sentido: de perceber, de perceber onde se está e de desapegar-se das solicitações, para poder-se ficar inteiro e exercer a autoconfiança para viver plenamente.

Como o foco é prestar atenção a quem de fato se é e aos próprios sentimentos, então, uma boa maneira de "virar o jogo" é partir das emoções que se sentem. Ao meditar, por exemplo, pode-se deixar que as emoções e sensações apareçam, para que se possam reconhecê-las, analisá-las e tratá-las. Podem-se sentir e registrar essas emoções que surgem. Será duplamente bom, pois, ao registrar, está-se fazendo um afastamento das emoções. Não se é mais o objeto daquela emoção, mas sim o sujeito que a observa. À medida que se vão retirando as emoções desnecessárias do passado, das idealizações e das projeções, mais cada um vai-se aproximando da própria essência.

Um desafio a superar, entretanto, é conseguir a constância dessa prática e assegurar um horário regular de exercitá-la. A disciplina é facilitada se estiver marcada no tempo e no espaço. O primeiro passo é marcar no tempo, ter um horário que seja seu, um que tenha menos chance de ser sabotado. Esse tempo passa a ser sagrado e todo seu, à prova de interrupções. Em geral, antes do amanhecer e antes do adormecer, são os melhores horários (com menor possibilidade de interferências). Outro cuidado é com o espaço: criar as condições de isolamento e conforto. É prático também ter ao seu lado um caderno e uma caneta, ou um gravador, para registrar os insights que ocorrerem durante a meditação.

A prática diária é fundamental, independentemente de qualquer propósito específico. O atleta, que treina regularmente, está sempre preparado para um desafio eventual. Assim também, a pessoa, que medita regularmente, está sempre num estado de potencial tranquilidade para lidar, do melhor modo, com as situações.

Porém, é nas muitas circunstâncias diferentes, nas surpresas, que se demonstram as virtudes. Se eu pratico com frequência as minhas virtudes, na hora em que surge a surpresa, a virtude adequada brota (sou convicto disso desde a idade em que comecei a praticar esportes; agora pratico Yoga, e continua funcionando para mim). O exercício de Yoga, assim como qualquer outro, tem por característica deixar-me apto a improvisar diante dos acontecimentos e a incorporar as virtudes de tanto praticá-las.

Mas, então, surge aquilo que não está tratado, o idealizado que ficou da infância e que há muito tempo me prejudica (inconscientemente). São imagens distorcidas de mim mesmo, às quais me apeguei (até inconscientemente). Acredito nelas, ou as incorporei como virtudes (mesmo que aparentes), como partes verdadeiras de mim mesmo. Mesmo que haja vezes em que me dou conta disso (ou porque percebi ou porque alguém me disse), a questão é de eu ser capaz de considerar o que me dizem ou o que percebi de mim mesmo, pois é difícil perceber quem de fato se está sendo. Enquanto eu mantiver minhas falsas autoimagens ou pseudo virtudes, eu estarei me atrapalhando.

Como disse a escritora Joanne K. Rowling, pelas palavras da personagem Dumbledore, o diretor do colégio de bruxos do Harry Potter: "A pessoa mais feliz do mundo se olha no espelho e vê quem realmente ela é". Felicidade de ser mesmo quem de fato sou. Ora, isso depende de mim mesmo, exclusivamente. Sou eu que estou no comando desse processo pessoal e, por isso mesmo, posso perceber o que tenho de mudar e cultivar a disciplina da minha transformação.

A sabedoria da disciplina é estabelecer um ritmo que seja adequado, de forma tranquila, para prosseguir em condições mais favoráveis. É desse jeito que eu estou indo, anotando, registrando meus insights, ouvindo o que os outros dizem de mim. O que surge é tratado com o que estiver ao meu alcance. A vida prossegue, eu erro, "piso a bola" e tento errar menos, na próxima vez, porque a perfeição será mera casualidade, e as novidades não respeitarão o que já passou.

Thadeu Martins



      

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