Emoção, razão e desapego

O viver é um permanente registro de emoções e significados do resultado das ações minhas ou de outros. Ao longo da vida, prossegue o processo de memorização dos significados e emoções. Isso não para.

Algumas experiências de vida foram tão significativas para mim – ou por terem sido muito boas ou muito ruins –, que elas estão sempre voltando em minha mente. São reminiscências, cujas repetições podem me atrapalhar no cotidiano. E, às vezes, essa coisa, que ficou dentro de mim, não é nem uma emoção boa ou ruim, é apenas uma imagem idealizada de mim mesmo. Eu, você e todo o mundo, até inconscientemente, traz alguma autoimagem idealizada e cisma em ser do jeito dela; o que foi até útil em determinadas situações, mas nem sempre é ou será o mais adequado.

Assim, a minha aparente trajetória (e as dos outros também) vai-se constituindo das experiências de aprendizado que permanecem. No entanto, há sempre a possibilidade do erro ou do acerto, porque a nova realidade não é necessariamente igual à anterior. Mas muitas das vezes, o apegar-se ao que já deu certo pode fazer fracassar na nova situação. Se, de fato, ela for nova, a ela não se aplica nada do passado. Na prática, uma experiência totalmente nova é rara. Como vivem-se realidades muito repetitivas, as novas situações não são tão novas. Então, quase sempre o comportamento habitual dá certo, o que faz reforçar esse modo de ser sempre do mesmo jeito, quase inconscientemente.

De certo modo, vou-me apegando a certas práticas, certas atitudes, certos costumes, embora nem sempre deem certo. Como preciso abrir mão de algumas dessas habitualidades para criar e lidar com algo novo que surgir, valeria cultivar a capacidade do desapego, para ficar apto a vivenciar novidades.

Daí o porquê de frisar a importância da racionalização das emoções que me ficam monopolizando, como uma forma de me distanciar delas para poder tratá-las. Só depois, então, passo a meditar, quando já estiver mais apaziguado dessas emoções, que estavam muito fortes e recursivas, para permitir que novos insights e emoções mais suaves brotem.

E aqui vale chamar a atenção para o seguinte aspecto: não me estou referindo ao controle das emoções, mas à compreensão delas, para não ficar refém das emoções exageradas. Afinal, posso até não controlá-las, mas em grande parte elas me controlam. Se as emoções não estão tratadas de algum modo, elas ficam mais fortes do que eu. Daí "fazem o que querem" de mim, pois me tomam, possuem-me.

Mas é claro que tenho de vivenciar as emoções, senti-las, percebê-las, sem preocupação de racionalidade. Se por um lado é importante registrar a emoção, analisá-la para libertar-me de uma compulsão, obsessão, por outro lado é essencial desenvolver a capacidade intuitiva de perceber-me. Na prática de Yoga, estimula-se tanto a apreensão direta (physis) como a racionalização (logos) do que foi apreendido. São dois caminhos que se complementam e que estão ao alcance, desde quando o ser humano começou a pensar.

Posso aproveitar o melhor de cada uma dessas direções: apreensão direta da realidade, em que não preciso sequer traduzir em palavras para compreender o que se passa; e racionalização, na qual utilizo as palavras para esclarecer o que sinto, com o propósito de afastamento, de compreensão e de autodomínio.

A natureza primordial de todos os viventes é emocional. Por mais que alguém pretenda conseguir o controle da emoção, só obterá vitórias parciais e instáveis. Em algum momento, quando se estiver com a guarda baixa, a emoção vai-se manifestar. A emoção é essencial, ela sempre irá aparecer, dará um jeito de manifestar-se. Melhor aceitá-la, vivenciá-la, tentar esclarecê-la até que se apazigue, para que se possa, então, meditar e integrar-se emocionalmente.

Thadeu Martins

 

      

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