A água na fonte dos símbolos e na Roda das Reencarnações

Em Yoga, não há qualquer determinação quanto à espiritualidade. O que se verifica é uma compreensão da natureza, da vida, da mente e da sociedade de forma bastante objetiva. Percebe-se também uma reverência, de inserção cultural, à mitologia indiana e hinduísta.

São inúmeras as divindades na mitologia da Índia. Ao fazer referência a esses deuses, entra-se em outro rumo cultural: aquele que oferece as alegorias que tratam do simbólico. Como diz o historiador norte-americano Joseph Campbell, a humanidade, por diversas razões físicas e culturais, tem necessidade de representar o mistério e, por isso, cria as referências alegóricas para lidar com a sua realidade simbólica.

Então, essa capacidade de nomear deuses, mitos, símbolos, arquétipos, responde às representações desse simbólico que está dentro da vida herdada dos ancestrais. Quando se fala de alegoria – seja religiosa ou mitológica – está-se tratando de uma representação que nesta época, com estes recursos e com esta linguagem serve para indicar algo mais profundo que existe ou se manifesta na minha essência e na de quem me é contemporâneo. Essa essência não foi criada há dez, cem ou mil anos. Foi formada há milhões de anos, porque antes de surgir o ser humano na Terra, muitas outras formas de vida o antecederam, além do fato de o meu corpo constituir-se de muitas formas de vidas consorciadas (algumas visíveis só por microscópios).

Esse mistério cujos símbolos são continuamente representados, por estórias, desenhos, imagens, vem reproduzindo alguns padrões ao longo da história da humanidade. Haveria padrões originais? Talvez.

Talvez a água os contenha, talvez, pois, até onde se sabe, a vida surgiu na Terra, há uns 3,5 bilhões de anos, com a água e com uma primitiva forma de pré-bactéria, que se desenvolveu com a água. Eu, você e todos os humanos também somos constituídos de água em grande parte, cerca de 70% do meu corpo é formado por água: algo que se emociona, como já se sabe (vale ver os estudos da água por Masaru Emoto). Portanto, o emocional constituiu a vida desde o princípio. Água é emoção, água determina a vida, a vida é determinada pela emoção, e eu, você e todo o mundo, portanto, é emocional, essencialmente!

Esta nossa essência emocional, no entanto, caracteriza tudo aquilo que se chama de formação cultural. Essa interação com algum outro princípio de vida, uma pré-bactéria ou pré-molécula determinada, constituiu a vida. À medida que se foram agregando, acabaram levando a esta variedade extraordinária e complexa de organismos vivos que se veem hoje.

De fato, os cientistas, os biólogos, que estudam a origem da vida na Terra, com profundidade, quando vão às origens, encontram apenas isso. Não se fala em espírito ou alma, mas constata-se algo material que se emociona e que forma vida: átomos de hidrogênio e oxigênio combinados em exata proporção.

Assim, os mitos e os arquétipos poderiam ser compreendidos, desde a sua origem mais remota, como um produto do relacionamento emocional da vida com o ambiente, no qual a vida está inserida. A vida emociona-se no ambiente em que se encontra e vai exibindo os seus padrões emocionais, que são até fotografáveis, conforme comprovou o professor Masaru Emoto, com o reconhecimento da comunidade científica atual.

O Dr. Emoto conseguiu registrar alterações em cristalizações de água, a partir de emoções que são oferecidas à água, por meio de diversas representações (sons, imagens, palavras etc.). Seja porque se escreveu uma palavra no rótulo do recipiente da água, seja porque se disse algo, porque se colocou uma música ou recitou-se uma reza, a água muda o formato de seus cristais congelados. Quando expomos a água a uma emoção, ela transforma-se.

Se a água estabelece padrões (formas das cristalizações) que são reconhecíveis, de acordo com determinado tipo de emoção, isso é muito significativo, pois a água está na origem e no prosseguimento da vida; ela caracteriza padrões relacionados à emoção. Podemos dar nome a cada um desses padrões. Ou seja, estabelecer o modelo primitivo de cada uma dessas emoções. E podem-se chamar essas representações como se quiser, em cada época, de arquétipos, deuses, entidades, alegorias.

Denominar significa estabelecer nome, código, padrão de representação. O que hoje é chamado de arquétipos são padrões. Existem desde quando? Quanto mais no tempo poder-se-ia recuar, ou ir às origens, para encontrar esses padrões, esses arquétipos? De onde eles vêm? Se alguém disser, hoje, que isso vem das partículas de água que constituem o corpo humano, a mesma água da origem da vida na Terra, desde o início dos tempos, estaria coerente com tudo o que se diz que se sabe.

Às vezes, a linguagem estritamente científica pode estar falando a mesma coisa que a linguagem estritamente religiosa, já que ambas tratam de representações da realidade para lidarem com a realidade. Na busca da origem, cada um pega um desvio do caminho, mas podem chegar a um mesmo ponto, embora com distintas denominações. Diz o Budismo: nome e forma ("nama", "rupa"), tudo é ilusão.

Quando em Yoga se fala de um princípio ordenador, se está referindo a um princípio social, que lida basicamente com a produção cultural. Alguém pergunta: "Existe mesmo a Roda das Reencarnações?" A resposta é sim, ela culturalmente existe, porque cada geração reproduz um comportamento a partir das gerações anteriores. A roda está rodando. Mas não se está falando da mesma pessoa, reencarnada ao longo da história. Há quem afirme que sim. Mas seja o indivíduo ou não que reencarne, isso é irrelevante. Com certeza existe a transmissão de cada contemporaneidade: de cada época para a seguinte. Independentemente de haver a reedição dos mesmos indivíduos, a transmissão acontece. Isso é indiscutível de tão evidente.

Eu, você e todo o mundo é, assim, herdeiro de várias tradições culturais, que incorporam os simbolismos originais e os representam e os incutem nos relacionamentos e comportamentos sociais. Cada pessoa, dentro dos limites que os seus contemporâneos aceitem, poderia criar algo novo ou escolher qual das possibilidades herdadas seria melhor para si mesma (filosofia, religião, comportamento político).

O Yoga é um exemplo desse tipo de composição de tradições culturais, no contexto indiano de seu surgimento, haja vista que o sábio Patânjali acrescenta um ser especial à sua sistematização do Yoga Sutra, para atender ao imaginário, místico, heroico dos hinduístas. Essa personagem é "Ishivara", que representa o princípio divino da vida em cada vivente. Embora tal personagem não tenha qualquer aparência corpórea ou figura a si associada.

Ao praticar o preceito "ishivara pranidhana", estou exercendo a atitude de entregar-me à vontade divina que habita em mim. Trata-se de um dos cinco principais comportamentos estimulados em Yoga ("niyamas"): cultivar a pureza, o contentamento, o esforço de realização, o estudo, e o render-se à vontade divina ("deixar a vida fluir"). "Ishivara" é o ser divino, a representação de uma divindade, de um princípio divino que permite o fluir da vida em cada vivente. Assim, o divino, para Patânjali, não é um velho barbudo e poderoso, é sim um princípio emocional, que está na origem de tudo que vive.

Pode-se observar que essa orientação cultural deriva da compreensão do princípio físico do fluido da vida: a água. Não por acaso, a origem lendária diz que o deus Shiva transmitiu os ensinamentos originais do Yoga a um peixe (Matsia) que observava os diálogos entre o deus e sua parceira feminina Shakti.

Ao mesmo tempo, porém, e à mesma época, a escola gêmea do Yoga, o Sâmkhya, é isenta de alusão a divindades. Trata-se de uma epistemologia classificatória, uma visão estruturalista da realidade, na qual não há lugar para uma representação divina. Embora esteja totalmente integrada ao hinduísmo, como uma de suas principais escolas de pensamento. Nela há um apenas um princípio dualista, do qual tudo se deriva: manifestação ("prakriti") e não manifestação ("purusha"). Enquanto o Sámkhya sistematiza a compreensão da natureza estrutural da vida, o Yoga sistematiza a compreensão dos comportamentos sociais e individuais, da mente, da vida emocional. Talvez por essa razão tenha obtido tanta aceitação popular.

Thadeu Martins



      

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