Viver o viver

Para o Sâmkhya, escola filosófica que apoia conceitualmente o Yoga, a vida tem uma origem dual, de manifestação ("prakriti") e de não manifestação ("purusha"), da qual tudo se deriva. O não manifestado é um referencial imutável em relação a tudo mais que se manifesta e, por isso, é também absoluto. "Purusha", o referencial absoluto, é um princípio universal, em relação ao qual se manifesta "prakriti", a natureza material da vida.

Como as individualidades são manifestações singulares, pode-se concluir, logicamente, que "purusha" também está em cada uma delas, pois se é absoluto está em todo e em qualquer lugar. A cultura indiana cria a palavra "atma", para designar essa individualização de "purusha". A grafia e pronúncia de "atma" lembra a de alma, cuja origem grega designa "aquele que se liberta da cidade", quando morre. Observo, então, que ambas as palavras podem ter o mesmo significado simbólico: o absoluto em cada vivente, o liberto das manifestações sociais e materiais (e também posso observar que ele nem precisa morrer para se liberar, pois liberto já o é).

Por consequência lógica, posso dizer que o meditar, o entrar em si, é o aproximar-se desse referencial interno. Mas pouco importa se vou mesmo encontrá-lo ou não, a intenção e o processo já trazem muito benefício. O que importa é que, quando abro mão das iniciativas, do agir e do interferir, e me proponho a ouvir, a sentir e a receber, reduzo as manifestações. Assim, vou-me deixando integrar ao referencial absoluto, que, como já disse, também está em mim. Esse é um conceito simplificado e objetivo do processo meditativo.

A tranquilidade, a harmonia e o bem-estar são algumas consequências decorrentes do meditar, mas ainda há mais. Quando falo em equilíbrio ou harmonia, o sentido é de estar em harmonia com o meu tempo, com o contexto social no qual estou, enquanto a sintonia principal é com o referencial, não manifestado, mais interno: "atma", o "purusha" em mim. Esta sintonia interna é viabilizadora da outra, a contextual, que é externa a mim.

O referencial absoluto fica em nenhum lugar ou em qualquer lugar específico; onde ele estiver estará o lugar da referência, porque é absoluto. A prática inclui, portanto, buscar em si mesmo esse referencial. Além do processo clássico de meditar, gosto de fazer um exercício (alegórico) de mentalizar uma luz dourada, pequenina como a cabeça de um alfinete, que surge no interior do meu cérebro; prossigo expandindo essa luz pela minha cabeça, sigo para o meu coração, daí para todo o meu corpo, até as extremidades; fico sentindo a sensação de a luz expandir-se pelo corpo; em seguida, faço o caminho inverso, de volta ao coração e ao cérebro. A seguir, retomo a expansão da luz da minha cabeça para o espaço externo a mim, ampliando, ampliando até expandi-la por todo o universo. Fico, então, curtindo uma agradável sensação de pertencer a uma grande unidade cósmica; depois venho trazendo de volta a sensação de luz até novamente colocar o pontinho luminoso de volta no interior do meu cérebro.

Esse exercício é uma ilustração, uma alegoria do movimento, da orientação. Como uma brincadeira de "iluminação", de diluir-se num referencial indeterminado. Para mim, o horário ideal para praticá-lo é logo quando acordo, para ajudar-me durante o dia. A sensação de tranquilidade propicia a capacidade de ver a realidade com isenção, distanciamento, de modo mais direto. No cotidiano, nem tento ficar em equilíbrio, porque logo surge alguém para tirar-me dele, seja por qual for o motivo. O estado de equilíbrio é o mais instável que existe. O que há de mais equilibrado é o movimento. A melhor imagem, para mim, é a de dançar conforme a música, ou surfar conforme o mar; e manter a intenção, o propósito de viver o viver.

Thadeu Martins

 

      

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